O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo

A imagem da newsletter e dos ecrãs desta semana estava à responsabilidade da coordenadora da Task Force Digital da nossa Paróquia. Temso feito para que as imagens que usamos nos ajudem a transportar para o foco da mensagem do Evangelho Dominical, não importa o estilo, importa sobretudo que ajude a trazer uma certa “cor” ao Evangelho que escutamos.

Esta semana a Daniela estava particularmente entusiasmada com o resultado final. Não porque a imagem seja particularmente criativa, mas porque é uma foto tirada por ela, de um trabalho particularmente especial.

É uma escultura de um artista britânico chamado Charlie Mackesy, que está exposta na entrada da igreja da HTB em Londres, sede do Alpha Internacional.

É uma figura nossa conhecida dos temas do Percurso Alpha. Tornou-se mais familiar nas várias viagens a Londres para participar na Leadership Conference, eu já desde 2015 e vários elementos da nossa equipa Alpha desde 2017 (este ano seremos 10).

Recentemente o Chalie Mackesy tornou-se conhecido globalmente ao ganhar um Óscar de Melhor Curta-Metragem de Animação (roubando a oportunidade ao português Ice Merchants).

Clique na imagem para aceder a uma entrevista (em inglês)

É um homem muito peculiar, todo ele respira “artista”, tem uma bela história de fé – que testemunha nos vídeos Alpha, e durante a pandemia (lembram-se?) criou um conjunto de publicações com frases inspiradoras, em torno de algumas personagens desenhadas por si, que depressa criaram uma comunidade em torno daquela alegria que ele inspirava. Muito rudemente faz lembrar um Principezinho do tempo digital, só para vos fazer perceber o impacto deste trabalho. Acabou pro se tornar um livro e mais tarde numa animação que foi premiada com o Óscar. Recomento vivamente ambos, independentemente da vossa idade.

 

Mas esta semana, e ouvir-me-ão falar disso na missa, se não forem à do padre Jorge – sim, porque eu agora sei quem vai à missa à Marinha e quem não vai(...), destacamos esta escultura que retrata do abraço do Pai ao filho, o tal que era pródigo[1].

E é um trabalho incrível de traduzir o espírito do Amor de Deus e daquilo que é a nossa Fé.

O olhar de alívio do Pai ao ver e abraçar o filho “que estava morto mas agora vive”, a força com que o abraça, e os braços desajeitados do filho que nem devolve o abraço.

E é aqui que está o pormenor que faz toda a diferença, o pobre rapaz não consegue devolver o abraço, porque o Pai faz tudo, é Dom total do Pai que não lhe pede retribuição, apenas que se confie totalmente.

Então os braços desengonçados não são de falta de jeito ou de vergonha, são de total entrega e confiança. O filho confia, entrega e abandona-se totalmente nos braços do Pai que naquele momento o suporta suspenso. (reparem como o Pai o abraça de forma envolvente)

“Quem tem ouvidos oiça...” Não se ganha, não se merece, não se devolve. É puro dom gratuito de um Pai que só quer ver o filho bem, são e salvo e que ignora completamente o seu erro, o seu pecado, sem lhe cobrar o que quer que seja.

Pede apenas a coragem de se deixar cair nos braços amorosos do Pai.

 


[1] pródigo

(pró·di·go)
adjectivo e nome masculino

1. Que ou quem gasta de forma desmedida ou compromete as suas possibilidades económicas com gastos excessivos. = DISSIPADOR, ESBANJADOR, GASTADOR, PERDULÁRIO ≠ AVARENTO, SOMÍTICO, SOVINA

2. Que ou quem tem ou oferece algo de forma abundante. = GENEROSO

"pródigo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2025, https://dicionario.priberam.org/pr%C3%B3digo.

Ouvir o Silêncio da voz do Senhor

O nosso senhor Dom Serafim teve, por muitos anos, vários heterónimos, com estilos e assuntos distintos para os seus escritos e a sua revista Síntese (se não falha a memória). Uma das que mais corria entre os seminaristas, no tempo em que eramos já poucos, mas mais que agora, começava: “da varanda do meu presbitério vejo”.

Eu não tenho uma grande varanda, mas os anos de padre têm sido local de encontro e de vislumbre muito interessante da nossa humanidade. E dou por mim a ver padrões, de comportamento, de dores, de dificuldades e outras que tais.

Esta semana vi expressar de uma forma muito mais articulada e eloquente uma das minhas intuições. Falavam do perigo do vazio das vidas Hiper-ocupadas.

Um conceito que associo sempre aos tubarões que precisam dormir em água corrente porque se pararem morrem (a malta da bilogia marinha que me perdoe).

Hoje há sempre ruído à nossa volta. E quando não é do ambiente que rodeia, procuramo-lo.

Música de Natal nas ruas e nas lojas, o ruído urbano no nosso caso. E quase estranhamos não ouvir nada. Quase tanto quanto o constrangimento de ficar em silêncio sem nada para dizer, seja com amigos, seja com Deus.

Até na fila do pão se puxa do telefone. E já não é um fenómeno de miúdos apenas. É natural o movimento de puxar do telefone para ver as notificações, o Facebook, o Instagram, o tempo, as notícias ou o mail do trabalho, ou um dos mil trezentos e cinquenta e quatro grupos de whatsapp...

Por estes dias, celebrando o Dia do Pai e a Solenidade do S. José, o silêncio voltou a ser chamado à nossa atenção, afinal de contas é a melhor citação de S. José: “______”.

Mas já não estamos habituados e estranhamos. Embora, se diga que seja um sinal de relações saudáveis: a capacidade de partilhar tempos de silêncio – sem vontade de cortar uma artéria ou fugir, acrescento eu.

Penso também nos nossos diálogos com Deus, nas nossas intenções, petições e pedinchices: sol na eira, chuva na horta, o Euromilhões para pagar o centro pastoral, paciência a quilo... então mas e dar tempo à resposta?

Na adoração ao Santíssimo há que haver um esquema, leituras para ir fazendo e pautando o ritmo do momento. E se demora, puxamos a Bíblia, as leituras do dia, a liturgia das horas, puxamos o terço. Tudo para não parar, vale tudo para não estar quieto.

Porque quando paramos podemos ouvir coisas que não queremos e nem é por mal. “agora não” “não estamos com cabeça” ou outra qualquer desculpa.

Recordo o desequilíbrio nos anos de vida de Jesus, trinta em silêncio, para três de acção e voz activa. Lá diz o povo que temos dois ouvidos e uma boca, para ouvir mais do que falar.

Em tempo penitencial, de conversão interior e de maior proximidade com o Senhor Jesus, intuímos já os vários silêncios que a Páscoa trará. Sobretudo dos discípulos incrédulos com o anúncio da paixão, o anúncio da traição, da mão no prato, o escândalo do “serei eu Senhor?”, a oração no horto, o silêncio da multidão diante do julgamento de um inocente, até ao silêncio do último suspiro do Senhor. 

Talvez possamos pedir o dom da coragem, de silenciar, dar espaço à resposta de Deus. nestes dias a meio caminho da Páscoa tenhamos a coragem de ouvir o que Senhor diz a quem se propõe escutar a sua voz silenciosa.

 Estou seguro que haverá agradácveis surpresas.

Pe. Patrício

Haverá vida pós-parto?

Partilharam comigo, esta semana, um pequenino vídeo, já com alguns anos, mas muito curioso. É uma espécie de metáfora para falar de Deus, da sua dimensão, da nossa vida.

É um diálogo entre dois bebés ainda no ventre materno. Um deles pergunta se haverá vida para além do parto. Talvez até conhecessem “a mãe”! ao que o outro responde que não há provas de que haja vida para além do ventre. Como iriam alimentar-se sem o cordão? Conhecer a mãe? Loucura!

O primeiro sonhava em comer com a boca, andar talvez... interagir com a mãe.

É bem claro onde isto nos leva e tem o seu quê de interrogação.

Olhava para o Evangelho deste Domingo e lá encontrava a Transfiguração de Jesus no Monte.

Aquilo que Ele faz é permitir aos seus discípulos entrever a vida pós-parto, que Deus sonha para a sua tão preciosa humanidade e que Jesus veio fazer acontecer.

E que tarefa complexa querer levar alguém para um sítio que não faz parte da sua imaginação ou do seu vocabulário até! Lá dizia o S. Paulo: loucura para os gentios, escândalo para os Judeus.

Pelo que, para além do carácter catequético que o texto tem, vejo sempre aqui um gesto inteligente de Jesus, como quem partilha fotos da viagem, ou da comida do restaurante favorito, onde deseja levar um amigo.

Mostrar-lhes o seu rosto glorioso, ainda que não fossem capazes de o perceber, foi oportunidade de criar um desejo no coração daqueles 3 apóstolos (e só aqueles).

 

Várias pessoas me perguntam como tem sido estes dias agora sozinho e o meu pensamento é sempre o mesmo: eu vejo uma paróquia no seu corpo glorioso. Como Deus a sonhou, como Deus precisa dela. E sinto-me um daqueles três discípulos: privilegiado pela confiança, mas sem saber bem o que vejo ou como chegar lá. Uma coisa é certa precisamos chegar lá e seremos capazes de chegar lá.

 

Tem sido desafiante manter a agenda e os hábitos, especialmente em tempo de visita ao domicílio para ver os nossos compadres que não se juntam a nós na Eucaristia. Mas sempre que vejo aqueles rostos de “pena do padre”, penso nos discípulos e naqueles bebés: não conhecemos, nem imaginamos uma realidade nova!

Eu estou a escrever isto já bem fora das horas da minha sesta nocturna.

Estes dias vários foram os funerais que foram acompanhados aos cemitérios pelos nossos ministros extraordinários da comunhão, que também já presidiram a alguns funerais (e a imagem da Nossa Senhora não caiu!)

Houve quem ficasse indignado por não ver lá o padre, mas também não soube dizer o nome do padre que lá faltava, como também, e isto é conversa para outras núpcias, nunca ninguém sabe quem é o padre para marcar o funeral.

Mas houve também apreço na surpresa, de quem se sentiu acompanhado, de quem apreciou a experiência humana de quem conduziu aquele momento de oração.

E tudo isto porque estamos habituados a fazer as coisas de certa maneira e nem sabemos bem porquê. Ninguém sabe explicar por que motivo é que tem que ser um padre a presidir a uma celebração que não é sacramento. Era boa ideia? -Era. Foi uma coisa que surgiu também para sustentar o clero? -Se calhar houve por aí no passado umas histórias de mercantilismo religioso.

Na próxima semana o Shemá será orientado pela equipa e pelos jovens para que eu possa ficar na igreja a confessar quem precisa. Porque isso só eu posso fazer. E só os sacramentos dependem totalmente de mim (e nem todos! Porque até o matrimónio pode ser presidido por um leigo. Mas estejam descansados que não vai ser possível o avô presidir ao matrimónio de um neto. Calma lá com isso!)

 

Mas verdade seja dita a paróquia precisa mudar. As paróquias precisam mudar.

- mas senhor padre, a Marinha é tão grande! O padre Jorge foi para 2 paróquias, com várias capelas. O que não nos falta por aí são paróquias com muito mais capelas do que nós temos, com maiores dificuldades geográficas, sociais e de deslocação.

 

Esta transformação vai doer a todos. E precisamos de ver o horizonte maior da nossa Diocese.

Sinto que estamos num momento em que nos rebentaram as águas. E embora o plano esteja definido, anda tudo louco à procura do saco para levar para a maternidade e à procura das chaves do carro que estão na mão esquerda entaladas entre a carteira e o saco e o casaco. O pânico cega e transtorna até as mentes mais preparadas.

 

 Este Domingo Jesus permite entrever o seu Rosto Glorioso, peçamos a graça de entrever uma paróquia diferente. Uma paróquia mais inteira, mais capaz, mais responsável, mais organizada, mais proactiva, mais viva, mais presença de Deus!

Não faltará nada a ninguém, mas efetivamente é uma vida nova, uma realidade que estamos a construir sem ter manual de instruções específico.

Da minha parte e onde as forças me chegarem tudo farei para ver esta paróquia tornar-se um farol de esperança, abraçar o convite de Deus.

Estou certo de que posso contar com todos vós para passando o susto das águas rebentadas, o pânico da viagem, enfrentar as dores de parto que culminarão imperiosamente no abração terno da nova criatura.

Padre Patrício Oliveira

Não comer carne à sexta-feira é fácil

Como diria o falecido Raúl Solnado “vinha eu na minha vida muito quentinho” quando me cruzo com uma muy reverente paroquiana, com quem tinha partilhado o dilúvio no cemitério, e pecador me confesso: cobicei-lhe a broa que trazia na mão da loja da Amélia Emília (sem patrocínio).

Acontece que a apanhei de surpresa e de boca cheia, partilhou comigo com uma alegria contagiante: senhor padre apanhou-me com a boca na botija! Vim buscar uns rojões para a janta e cheiravam tão bem que não resisti e já comi um! Estão óptimos!”

Eu nem queria acreditar que aquilo me estava a acontecer, e ainda a pensar na broa e feliz de ver um sorriso tão genuíno perguntei: “Hoje”. Creio que o rojão ainda não terá descido e desconfio que o jantar não terá sido tão aprazível como planeado.

Imaginam o resto da conversa.

Ainda acrescentou: “havia de me confessar, mas nem era por causa dos rojões.”

Fiquei a pensar no episódio que me caiu no colo desta forma tão espontânea. Efetivamente não comer carne nas sextas da Quaresma é fácil. Vivemos num país que tem mais de mil maneiras de cozinhar bacalhau (e acho que não incluí as receitas de bacalhau preto).

Efectivamente os tempos mudaram, bem como o acesso a variedade e quantidade de alimentos.

A Conferência Episcopal Portuguesa lá recorda que este exercício espiritual se pode concretizar na abstinência de carne. E a coisa está tão enraizada que permanece forte na memória coletiva. Quem me dera que o preceito da Eucaristia semanal e a confissão regular mantivessem essa presença na memória do povo.

Incomoda-me sempre a forma mecânica como vejo o preceito ser usado e anunciado: carne não, um peixinho fresco grelhado (caro que dói), ou marisco! O marisco pode-se!

E afinal porque não se pode comer carne ninguém pergunta.

A igreja recorda sempre a Sexta-feira Santa em todas as sextas, em abono da verdade o preceito é indicado para o ano todo (assunto para outro dia). recordamos a morte de Cristo por nós, a sua entrega na Cruz. Podemos ver aqui uma ligação espiritual com a carne de Jesus? Talvez. É importante? Sim, claro, é parte da nossa história e da nossa tradição.

Mas o que queremos mesmo é unirmo-nos ao Seu sacrifício. E sentirmo-nos amados, atrevo-me a dizer até: esmagados por tamanho amor e coragem. Dizemos que morreu por nós com demasiada facilidade.

Queremos sobretudo honrar este sacrifício. Morreu por nós porque nos ama. Porque Viu (Vê...) em nós um valor que talvez nem nós mesmos somos capazes de reconhecer. Deus apostou forte em nós!

Então tudo isto serve apenas para “puxar” por nós. Fazemos sacrifícios e penitências para nos emendar. Para um exame de consciência profundo e honesto. Reconhecer o quanto falta para chegarmos a ser o que aquele Jesus de Nazaré viu em nós. E diante disso, pedimos o dom de querer mudar.

Penitência, pelos pecados, jejum do que está a mais. O exercício de não comer carne, abster de pequeninos gostos, servem para nos lembrar DAQUELA Sexta-feira e que não podemos desistir de sermos inteiros/humanos/santos, ninguém O quer defraudar.

Não comer carne é fácil, pedir perdão é que é complicado.

Não matar, não roubar, não fazer mal a ninguém está muito aquém dos mínimos olímpicos do ser gente séria.

A dificuldade está nas coisas pequenas. As mentiras piedosas, as impaciências, o dedo rápido a julgar, o preconceito, a presunção de não ter pecados e ser melhor que os outros, a certeza de ser o único condutor que sabe entrar numa rotunda.

Difícil não é comer lombinhos de salmão em vez de bife da vazia, difícil é calçar os sapatos do outro.

Difícil é dar do que tenho e não do que me sobra. Difícil é não gastar para partilhar, não é dieta nem esmolazinha, é partilha e solidariedade, de moeda e de tempo.

Dificil é dar-me um pouco, mais até do que merecem

Mas foi isso que Ele fez!

Incomoda-me a beatice, a soberba de cumprir preceitos e coleccionar indulgências e olhar de lado para alguém que nunca ouviu falar da novena do terço dos santos mártires do penedo do norte de África, enquanto se alimentam tricas e ciúmes e maledicência disfarçada de frontalidade.

Mas como, ao contrário de certas pessoas, não comeram rojões: está tudo bem!

Ser católico é desconfortável! E dificilmente podemos andar descansados porque cumpri as minhas obrigações todas e tenho as contas em dias.

O católico caminha vergado pelo quanto nos falta e pela vergonha de teimar em fazer as mesmas coisas, mas caminha fortalecido pela confiança num Pai misericordioso que não o deixa cair e ficar na lama do seu próprio pecado.

É um caminho de tensão, que há-de ser alimentado pelos Sacramentos, pela oração, pela escuta da Palavra e pelos irmãos de caminho.

Que estes dias, sejam de esperança, de coragem, de dar de nós, de voltar para fora.

Vamos ter catequeses Quaresmais, perguntemos, partilhemos. Sejamos curiosos acerca do sentido das tradições.

Hoje no Evangelho perguntavam a Jesus: porque não jejuam os teus discípulos? Eu gostava de perguntar: “Porque jejuam vocês? Só porque sim?”

Não seja só dieta. Seja uma mudança profunda no modo de viver e de abraçar o Amor de Deus que olhamos pregado na Cruz.

Pe. Patrício Oliveira

O meu mais novo vai embora

Tem sido uma grande aventura ser pároco da Marinha Grande, desde descobrir por SMS que o ia ser, bem como o vigário paroquial que nos foi enviado e posteriormente este mais “novo” que agora se vai embora.

Não conhecia nenhum particularmente bem, e a avaliar pelo tamanho de ambos parece que o senhor bispo anda a tentar acertar no tamanho certo.

Embora meio assustadora, tem sido uma aventura interessante e desafiadora. Tanto o meu mais velho, como o meu mais novo são bem distintos, mas cada um deles traz consigo um tesouro precioso que acrescenta valor à paróquia e a mim, que sobrevivo a eles e à paróquia.

O padre Jorge despede-se hoje, depois destes anos de trabalho e casa partilhada. E é inevitável olhar para estes anos, que com pandemia e guerras e outras coisas tais, parece que foram noutra vida.

Hoje sinto que é tempo de manifestar gratidão. A Deus que nos foi conduzindo e cuidado de ambos (nunca foi preciso chegar a vias de facto!) e de modo particular ao padre Jorge que trouxe a sua história, a sua paciência interminável, uma serenidade que roça o irritante, mas sobretudo um grande desejo de trazer o amor de Deus onde quer que chegue.

Hoje sentimo-nos mais pobres ao despedir-nos dele, mas é inegável que estamos mais ricos por ter estado connosco.

Até já Senhor Prior do Souto e Bajouca.

Pe. Patrício Oliveira

Padres nossos

Cruzei-me quase por acidente com o texto do padre Augusto Pascoal, que partilho aqui e senti-o como meu. A residência de que ele fala sempre mexeu comigo a um nível muito íntimo, que me perturba profundamente, mais do que eu gostaria de admitir. Durante vários anos tive até muito dificuldade em entrar lá sem que me viessem algumas lágrimas mais atrevidas.

Nunca conheci muito dos padres que lá passaram, a não ser pelas histórias. O meu contacto com o presbitério é relativamente recente e antes disso só conhecia o meu pároco, o saudoso padre Manuel Ferreira e os vizinhos. Recordo com especial carinho o padre Zé Luís que sempre conheci em Seiça, que nos acompanhava nas actividades da pastoral juvenil da vigararia e a quem ganhei 5€ num jogo de autocarro numa dessas viagens. Só este ano é que ele passou à condição de emérito.

Mas ali na casa do clero, tudo me soava a injusto. Talvez por ter uma impressão tão positiva dos padres que conhecia, ver aqueles homens, reduzidos a uma sombra do que eram, magoava-me; talvez por me identificar ou antever ali um futuro longínquo. (não é muito diferente em qualquer lar onde vá, é diferente apenas por ser menos pessoal, os padres mais velhos, são para nós, os ainda novos, uma espécie de tios).

O padre Pascoal fala hoje em nome próprio das dores e dos medos que a humanidade carrega e transporta mais ou menos dolorosamente. A busca do sentido, para a vida e para as dores e alegrias. Podemos dar-lhe nomes diferentes, mas a dor é a mesma.

Por estes dias, com o Papa internado e com todo o ambiente de morte anunciada que a comunicação social nos vai impingindo, numa altura de profundas mudanças na nossa diocese, dou por mim a olhar para estes homens lá daquela “residência”, os que conheci na força da vida, os que vi decair; penso nos que foram meus professores, até penso nos meus dois mais novos, na véspera do mais novo sair de casa e sinto uma oração silenciosa por todo eles. Sento-me a escrever e junto o meu nome à lista dos que confio à oração dos meus paroquianos favoritos.

Tenho observado todo este processo com preocupação, surpresa e alguma apreensão. Custa-me ver as resistências, as conversas e as dores de todo o presbitério que se vê obrigado a reinventar-se sem saber bem como nem em quê. Um presbitério que enfrenta as mesmas dificuldades e resistências que as comunidades tiveram e que tanta luta deram a estes mesmos padres. Somos todos tão parecidos. Gostamos todos das nossas seguranças, estruturas e hábitos e lutamos com determinação para não as perder. Mesmo quem prega que “o Espírito sopra onde quer”.

O padre Albino dizia-me em Minde que a geração dele tinha sido educada e treinada para ser “o padre contra o mundo!” e alegrava-se com a diferença que via hoje em dia. mas na verdade o presbitério é ainda todo ele marcado por esta mentalidade de ser o que a psicologia chama “o super-homem”, fortes, determinados, sempre capazes, incansáveis, capazes de chegar a tudo, a centralizar e a micro gerir paróquias, serviços e movimentos. O super-homem só corre bem na banda desenhada e essa é uma lição que estamos todos a aprender da forma mais dolorosa possível. Sobretudo ao perceber que fizemos a fortaleza da solidão casa de habitação permanente e não apenas refúgio para dias difíceis e agora somos obrigados a mudar. A mudar para sobreviver e assumir que fomos vítimas de nós mesmos. Que não vimos os sinais, que não soubemos ler a diminuição das vocações e as comunidades a afastarem-se da responsabilidade.

Hoje estamos num ponto de viragem particularmente assustador, mesmo que confiantes na graça de Deus e na acção do Espírito Santo, é um momento é solene e difícil. A vós, comunidade cristã, não se pede já apenas que rezem pelo Papa e por nós clero, mas que voltem a casa, que voltem a assumir o cuidado e o governo das comunidades, não porque somos poucos padres, mas porque há coisas que os leigos sabem fazer tão melhor que nós. Partilhem da criatividade, deixem-nos ajudar-vos a fazer das paróquias casa e escola de comunhão.

Que se possa dizer em breve também de nós: “vede como eles se amam”.

Estou convicto que por detrás de todo este ruído está um Deus presente que desafia e conduz a uma igreja nova. Diferente daquela que conhecemos, eu e o padre Augusto. Já não é uma realidade para daqui a futuro mais ou menos distante, já começou. E já começou há mais tempo do que queremos admitir.

Abracemos este novo futuro com coragem, confiança e sobretudo de coração aberto ao sussurro do Espírito que continua a indicar o caminho.

Mudanças no tempo!

Mudanças… para muitos aparecem como um medo, para outros uma desgraça, para outros uma desculpa, para outros tantos uma graça, ainda que no meio da dor, a mudança se apresenta como um recomeço.

Há mudanças previstas e planeadas, sabemos que outras são inesperadas, umas grandes, outras pequenas, por vezes libertadoras e outras vezes mudanças indesejadas, pequenas, grandes, entusiasmantes. As mudanças podem, também, vir como o vento que na sua brisa nos revela que está na hora de dar lugar ao que de novo está para chegar.

 As mudanças, por vezes, chegam sem pedir licença… mas elas acontecem e acontecem no tempo!

Na nossa vida tudo requer tempo, por menor que esse seja; “tempo para nascer e tempo para morrer; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de destruir e tempo de construir; tempo de buscar e tempo de perder, tempo de guerra e tempo de paz....” (Ecl.3, 1-8), até a natureza é regida pelo tempo, nas suas diferentes estações (primavera, verão, outono, inverno), e também há tempo para esperar o agir de Deus e ver o cumprimento da Sua promessa. 

A ideia de que sempre temos que estar bem, ser felizes, saudáveis, ricos e andar sempre em festa, talvez possa ser uma ideia muito romanceada ou de filmes, de novelas e sermões da prosperidade, mas nem sempre assim acontece! Há tempos em que sofremos, choramos, estamos doentes, desistimos, calamos a dor, a injustiça, a solidão.

Mudanças no tempo que pedem a mudança do “eu”.

Na vida de Jesus também houve tempo para tudo: tempo para nascer, tempo para rir, tempo de ensinar, tempo de chamar discípulos, tempo de curar, tempo de ficar em silêncio diante da barulheira do mundo, tempo de falar do amor de Deus enquanto partiam o pão da ceia, tempo de suar gotas de sangue com o tão grande sofrimento e tempo de morrer e de ressuscitar. 

Jesus teve que esperar ser adulto, esperar para ser batizado por João, esperar para que se cumprisse através d’Ele todas as profecias, esperar pelas acusações, esperar pela dor, esperar pela cruz, esperar para estar novamente a direita de Deus Pai. 

E Jesus como é que respondeu diante deste tempo de espera? 

Oração, tempo com o Pai, silêncio, lágrimas sim, mas em momento nenhum, revolta, desanimo ou vontade de desistir. 

O Senhor permite todas as "estações" nas nossas vidas para que a Sua vida se possa ir aperfeiçoando na nossa vida! Para que a Sua Glória possa ser vista em nós e outros perguntem e digam: “Estás diferente”, e nós possamos responder: “É a luz de Cristo em mim!.” 

Mas para isso precisamos pedir sabedoria para agir no tempo em que nos são pedidas mudanças.

Ao nível eclesial e da Igreja também somos desafiados a “agarrar” as mudanças que nos são ditadas pelos sinais dos tempos, e, a acolhê-las na fidelidade ao Evangelho e na senda daquilo que foram sendo os ensinamentos dados e deixados pela Tradição e Magistério da Igreja.

Nessas mudanças, “Não escondemos que experimentámos em nós o cansaço, a resistência à mudança, a tentação de fazer prevalecer as nossas ideias sobre a escuta da Palavra de Deus e a prática do discernimento.(...) O discernimento que podemos classificar de eclesial, exercido pelo Povo de Deus...que se esforça por discernir nos acontecimentos, nas exigências e aspirações, em que participa juntamente com os homens de hoje , quais são os verdadeiros sinais da presença ou da vontade de Deus.

(...) Ao viver o processo sinodal, tomámos nova consciência de que a salvação a receber e a anunciar passa através das relações. Ela vive-se e testemunha-se juntos. (...) O sentido último da sinodalidade é o testemunho que a Igreja é chamada a dar de Deus, Pai, Filho e Espirito Santo...” (Documento final do Sinodo dos Bispos) que precisamos que chegue até aos confins da terra e a todos os corações dos homens e mulheres nossos irmãos do nosso tempo.

Neste caminho sinodal também a nossa diocese foi participante e, na escuta que fizemos uns dos outros, iluminados pelo que nos diz o Espírito, chegou o tempo de mudanças que tocaram também á nossa paroquia da Marinha Grande.

A formação das Unidades Pastorais torna-se uma realidade e abre o tempo para o desafio de mudarmos ritmos, compromissos, disposições pessoais e nos abrirmos a vivência da fé em comunhão eclesial e de maior proximidade ao coração de Jesus e dos irmãos.

Nada ficará como dantes, porque Jesus quer ser dito e anunciado de maneira criativa de modo a tocar todos os corações inquietos que procuram desbravar caminhos novos e a viver na plenitude a sua humanidade.

Para que isso seja uma realidade é preciso “partir” com o sentido de que “É necessário que Eu anuncie também as Boas Novas do Reino de Deus em outras cidades, pois precisamente para isso fui enviado.”(Lc 4, 43).

É com este sentido da missão e da realização do meu ministério que parto e deixo a paroquia da Marinha Grande, com as expectativas que as mudanças acarretam, mas, com a certeza de que é por vontade de Deus e de que irmanados na fé permaneceremos juntos!

Mudanças no tempo que humanamente se apresentam difíceis, mas que em Deus são pacificadas e felizes!

Até já....!

à sombra da barragem...

Sento-me à sombra da barragem
Do lado da secura
Não para resolver a sede, porque sei
Que a sede não se cura

 E tentei escalar esta parede
Tentei furar até ao outro lado
Mas nada há pior para um homem
Que querer viver saciado

Sento-me à sombra da barragem
Do lado dos desertos
Como um mendigo de mão estendida
E de olhos muito abertos 

E perdi a voz a gritar para o alto
Juntei entulho para fazer um monte
Mas se quero abolir a sede
Quem me guiará até à fonte
 

Permaneço no deserto
Eu não vou tomar atalhos
 

Sento-me à sombra da barragem
Do lado do desejo
Vivo de uma invencível esperança
No que não sei, não toco, não vejo
 

E pedi respostas já prontas
Como um ferro dobrei a verdade
Foram barras de uma prisão maior
É que a sede é condição da liberdade
 

Sento-me à sombra da barragem
Do lado da espera
Sempre me soube como lixo, o plástico

Que a pressa gera 
E já provei o desespero
E já se esgotou a coragem
Mas não se vive senão da sede
Sentado à sombra da barragem
 

Permaneço no deserto
Eu não vou tomar atalhos
 

Permaneço no deserto
Eu não vou tomar atalhos

- Pe. Duarte Rosado, SJ

  

Cruzei-me com o trabalho do padre Duarte muito recentemente, para minha grande vergonha, e tem sido uma lufada de ar fresco.

Está em grande destaque o trabalho Isaías e a Fragilidade, onde traz melodia ao livro de Isaías, mas as letras de autor, revelam uma humanidade tão profunda e tão verdadeira, que parecem dar voz a pensamentos e sentimentos que nem sabia ter, mas que estão cá dentro e trazem peso aos dias.

Temos partilhado com a comunidade a eminência das mudanças, nomeações, re-organização da Diocese, da Paróquia e tudo o mais que isso implica. Sinto um processo necessário, mas doloroso, que valerá a pena, mas que será desafiante.

E sinto as reservas, as dúvidas, os apegos e as dificuldades de abraçar algo novo mesmo sabendo ser para melhor.

Sei que precisamos de uma forte ligação com a raiz da nossa Fé, com a Palavra, com a pessoa de Jesus e uma enorme atenção às moções do Espírito que sopra, conduz e suporta a Igreja que somos e a que gostávamos de ser e sobretudo a que Deus quer que sejamos.

A humanidade da fragilidade do coração humano, que o padre Duarte tão bem canta, toca-me profundamente nestes dias. Sinto-a como minha, provocada por mim ou pelas circunstâncias, mas minha, que me abala, me faz tremer e duvidar de tudo.

E mesmo sem ver, que agora o futuro me parece muito opaco, sei que do outro lado há um Deus que chama, que aguarda pacientemente, tal como o Pai do(s) filho(s) pródigo(s): à espera que percebamos que é a confiar nele que encontramos a nossa casa.

É ali que encontraremos a igreja que Deus sonha para nós, uma casa que oferece paz, tranquilidade, conforto, segurança, mas também a coragem de sair para mais longe.

Mas hoje, hoje sento-me à sombra da barragem e temo que possa estar do lado errado à procura do Pai que aguarda que me(nos) encontremos.

Rezemos por estes dias, pela comunidade, por um coração disponível que se deixe amar e transformar.

padre Patrício Oliveira

(Para quem tiver tempo e paciência e auscultadores para ouvir fica aqui o trabalho do padre Duarte)

 

Vamos transformar o mundo...discipulando!

Mudar o mundo é um objetivo muito altruísta, muito bonito, uma visão muito romântica, até podemos dizer muito encantadora. Ao querermos empreender em tal missão talvez possamos descurar o quanto isso requer de nós, mas é um ideal que faz arder o coração. Será que conseguiremos mudar algo sentados no comodismo do nosso sofá, sem abandonarmos nada, sem sacrificarmos nada?

A resposta parece-nos lógica: não!  

O Papa Francisco  na Vigília de oração da Jornada Mundial da Juventude realizada em Cracóvia, Polónia, em julho de 2016, falou-nos sobre a atitude de “sair do sofá” para sermos atores da mudança do mundo:

“Julgar que, para ser felizes, temos necessidade de um bom sofá. Um sofá que nos ajude a estar cómodos, tranquilos, bem seguros.(...) Um sofá contra todo o tipo de dores e medos. Um sofá que nos faça estar fechados em casa, sem nos cansarmos nem nos preocuparmos.

Jesus não é o Senhor do conforto, da segurança e da comodidade. Para seguir a Jesus, é preciso ter uma boa dose de coragem, é preciso decidir-se a trocar o sofá por um par de sapatos que te ajudem a caminhar por estradas nunca sonhadas e nem mesmo pensadas, por estradas que podem abrir novos horizontes, capazes de contagiar-te a alegria, aquela alegria que nasce do amor de Deus, a alegria que deixa no teu coração cada gesto, cada atitude de misericórdia. (...) Caminhar pelas estradas do nosso Deus, que nos convida a ser atores políticos, pessoas que pensam, animadores sociais; que nos encoraja a pensar uma economia mais solidária do que esta.(...) Deus espera algo de ti, Deus quer algo de ti, Deus está à tua espera.” 

O que disse aos jovens naquela noite a todos nós se dirigia!

Jesus já nos tinha deixado claro a atitude a que somos chamados:

Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, o que perder a sua vida por minha causa e do Evangelho, salvá-la-á.” (Mc 8, 34-35)

No seguimento das palavras de Jesus devemos pensar e avaliar se realmente estamos dispostos a mudar o mundo custe o que custar inclusive a nossa “liberdade”. Cristo usa a palavra “quiser”, entenda-se que nem todos querem viver esta vida de renúncia, que implica escutar a sua voz, respeitar e obedecer às suas ordens sem questionar se para isso temos que morrer para nós mesmos.

È um dado adquirido e humano que renunciar aos projetos, vontades e desejos pessoais se trata de um exercício difícil, doloroso e, para lá disso, suportar humilhações, perseguições, traições e manter a alegria, harmonia e paz é uma situação que se apresenta quase utópica.

Será que estamos dispostos a isso, sem colocar a Deus limites, como: “olha Senhor é melhor parar por aqui...nesse sentido não consigo prosseguir...não tenho coragem, não sou capaz, não tenho qualidades para...! e com essas desculpas querer fazer as coisas apenas á minha maneira?

É certo que estamos num mundo em mudança e de muitas mudanças no mundo, onde Deus e o Evangelho aparecem como idealismos ultrapassados e que bloqueiam a felicidade humana.

O mundo mudou muito, principalmente nos anos que abrem o século XXI. Não se pode negar a consequência dessa transformação no panorama cultural, social, político e religioso ao nosso redor. Por isso, entender o que se passa deve ser a primeira reação daqueles que querem mudar o mundo, não de uma maneira qualquer, mas no seguimento de Cristo e por Cristo... numa atitude de discípulos missionários dispostos a fazer disseminar a Boa Nova que nos foi deixada pelo Mestre.

Hoje nas nossas comunidades, ou mesmo dentro das nossas casas, existem por causa dessas mudanças, pessoas com dificuldades em confiar nas outras, intolerância em grau extremo ou um tipo de tolerância/fechar de olhos que não é mais do que complacência com as situações de guerra, fome, solidão, abandono, abusos, autossuficiência, que degradam a dignidade da pessoas humana. Pior que esta “tolerância” é a indiferença que deflagra no coração e mente dos homens. Uma indiferença que mata!

A denúncia e o combate à indiferença perante a injustiça e o sofrimento dos outros tem sido um dos motes do discurso e da ação do Papa Francisco. Na sua encíclica Fratelli Tutti, o Papa fala-nos duma “indiferença acomodada, fria e globalizada, filha duma profunda desilusão” [30], falsamente justificada pelo determinismo ou fatalismo em que nos deixamos, tantas vezes, cair [cf. 57].

O amor que dá vida à fé em Jesus não permite que os seus discípulos se fechem num individualismo asfixiador, escondido nas pregas duma intimidade espiritual, sem qualquer efeito na vida social (cf. FRANCISCO, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 183).

Podemos então dizer que para o cristão também nada é indiferente! Seguindo as pegadas do Mestre, é preciso que nos esforcemos por ser verdadeiros discípulos que irradiam a alegria do Evangelho nas sua vidas, que contagiam os outros com a sua palavra e paz, que transformam vidas com o seu amor e fraternidade. Isto é viver o discipulado com autenticidade, na fidelidade á tradição, perscrutando caminhos novos onde o Evangelho se apresenta como bálsamo para a humanidade.

Viver como verdadeiros discípulos missionários é mostrar a coerência entre o que pregamos e o que vivemos, levar a que os que escutam a nossa mensagem possam ser conduzidos ao Mensageiro.

Se assim agirmos, se a nossa ação e, consequente discipulado, tiver as marcas reais de Jesus Cristo, o Evangelho continuará a ser, como de fato o é, a mensagem que salva, liberta, esclarece, limpa, satisfaz e eleva o ser humano à sua dignidade original.

Sejamos discípulos autênticos. E demos o testemunho autêntico que leva a gerar novos discípulos, tudo para a maior glória de Deus!

Li e gostei e por isso deixo abaixo este belo texto, de autor desconhecido, que vem ao encontro da nossa reflexão:

Quando era jovem, queria mudar o mundo. Achava difícil mudar o mundo, então eu tentei mudar a minha nação. Quando descobri que não conseguia mudar a nação, comecei a focar-me na minha cidade. Não conseguia mudar a cidade e como um homem mais velho, eu tentei mudar a minha família.

Agora, como um velho, percebo que a única coisa que posso mudar sou eu mesmo, e de repente percebo que se há muito tempo eu tivesse mudado a mim mesmo, eu poderia ter causado um impacto na minha família. A minha família e eu poderíamos ter causado um impacto na nossa cidade. O impacto deles poderia ter mudado a nação e eu poderia, de fato, ter mudado o mundo.

Queres mesmo mudar o mundo?

Não te esqueças que “Deus espera algo de ti, Deus quer algo de ti, Deus está à tua espera.”!

O poder da palavra

Não é preciso muito para fazer um rápido exercício de memória e recordar momentos da nossa vida em que uma única palavra tocou as nossas fundações mais profundas. As memórias da primária: “És burro!”, “Feio”, “Gordo”, “Não vales nada”, “odeio-te”; “Obrigado”, “Gostei muito”, “Amo-te”...

Ficam marcadas na memória, trazem angústia e esperança, conforto ou uma dor profunda que nos faz duvidar de nós. Mas uma só palavra pode também fortalecer e ser a diferença entre a vida e a morte.

A quem iremos Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna”, dizia S. Pedro; mas Aquela Palavra já estava na criação, aquela Palavra foi instrumento de criação dos céus, da terra, das esferas celestes, tudo o que se vê e não vê.

Aquela Palavra chamou Samuel, mas era também a brisa suave que fez Elias sair da gruta. Aquela palavra atraía multidões: curiosos, doentes, coxos, gente sem esperança, que vinham de todo o lado, que se colocavam em peregrinação para ouvir.

Penso sempre quão marcante terá sido para leprosos e marginalizados que era evitados a todo custo, ignorados, e que de ouvem Jesus dirigir-se-lhes, talvez pela primeira vez em anos.

O que terá sentido a Samaritana quando percebeu que Ele estava à espera dela!

A Palavra continua à nossa espera tal como esperou a mulher Samaritana, continua a passar entre nós e pára quando chamamos, mas também chama por nós quando subimos a uma árvore para o ver melhor.

Talvez para nós hoje não seja tão óbvio ou tão visual, mas a Palavra é a mesma e está até mais perto e acessível. Li em tempos que toda a Bíblia é uma carta de amor que Deus escreve à humanidade. Os mais velhos recordar-se-ão, e aposto que muitos ainda as guardam.

 Neste Domingo da Palavra de Deus, o Papa Francisco desafia-nos a lê-la com novos olhos. É carta para cada um de nós. Foi escrita para a nossa história e para as nossas circunstâncias. E adapta-se sempre, e é sempre nova, porque é viva e Eficaz, porque é Deus que se torna presente, ou porque nos abre caminho à oração. Seja um Salmo que rezamos como se fosse nosso, seja rever-nos em qualquer uma das personagens que ali são descritas. Ou porque simplesmente revelam como Deus fala.

Num mundo tão marcado pela escuridão, para nós que nos sentimos tantas vezes sozinhos a Bíblia que temos ali guardada na estante pode bem ser o bilhete para sair dessa desolação.

Neste dia, peçamos novos olhos, novo olhar, um coração disponível que faz uma pergunta apenas: o que diz Deus à minha vida hoje, com esta palavra.

Pe. Patrício Oliveira

Sinodalidade: Um estilo de vida na Esperança

O Papa Francisco convidou-nos a adentrar no sentido do termo “sinodalidade”. Nunca se tinha ouvido falar e laborar tanto em torno desta temática.

Sinodalidade significa caminhar juntos . Esse caminhar juntos exige iniciar processos, origina corresponsabilidade. Caminhar juntos apresenta-se como uma das marcas inconfundíveis dos seguidores de Jesus: “Enviou-os, dois a dois, à sua frente a todas as cidade e lugares aonde ele havia de ir” (Lc 10,1). Para serem verdadeiros discípulos missionários, deviam caminhar juntos no exercício da missão designada por Jesus. Por isso, para o Papa Francisco, sinodalidade “é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio” é o “modo de ser” da Igreja, uma “dimensão constitutiva” da Igreja. (Carta da 16ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos ao Povo de Deus).  

Vivemos num tempo com características muito peculiares, muitas delas nunca antes vistas na história. Dentre elas podemos destacar: o avanço tecnológico, o pluralismo, a afirmação do sujeito individual e o crescimento cada vez maior do individualismo, a absolutização do dinheiro/capital em detrimento do humano, o grande abismo entre ricos e pobres, a mudança de modelos culturais…, atingindo a família, a comunidade e a sociedade. O futuro mostra-se incerto e simultaneamente gerador de receios que nos tolhem a esperança do amanhã. Ao mesmo tempo, cresce o desejo por um mundo mais justo e feliz para todos.

Muito embora os avanços, vivemos um “vazio de valores” marcados pelo  abandono/esquecimento de Deus e a ausência de participação e compromisso numa comunidade, sem que isso traga o sermos mais humanos, mais livres, nem mais felizes.

Por isso, podemos dizer que o contexto em que vivemos nos deixa o desafio a sermos “fecundos” (Cf. Gn 1,28). Para que tal se torne realidade é preciso abandonar o comodismo e a passividade e aceitarmos sermos cocriadores do nosso futuro. É preciso não nos fecharmos em nós, nas nossas seguranças e status quo, quando a situação nos impele a uma atitude de abertura ao outro. Significa que nesse contexto somos desafiados a buscar uma vida cristã mais suscitada e mais centrada em Jesus e no projeto do Reino de Deus.

Novos problemas exigem novas soluções!

Para os nossos tempos o Papa Francisco deixa-nos uma feliz provocação que remete para algo essencial: ouvir o outro, abrir-se ao diálogo e ao respeito, a valorizar o outro, a acolher o que o outro tem a dizer. Essa experiência mostrou que a “escuta” se constitui num laço de aproximação atenciosa às pessoas, possibilitando uma abertura à participação e à construção de relações novas. Por isso, essa experiência de uns se colocarem à escuta dos outros e todos à escuta do Espírito,  apresenta-se como indicativo de uma prática permanente na vida da Igreja, “um berço” de esperança.

Abrir-se à esperança no mundo a que pertencemos; Ser esperança, ter olhares de esperança e assumir essa postura de vida é essencial para a realização humana, como para a construção de um viver coletivo. É preciso saber esperar, e não desistir da busca das oportunidades que têm a sua força para além dos nossos recursos humanos, mas que estão enraizadas na espiritualidade e na fé.

Os caminhos de esperança são percorridos quando se procura exercer a fraternidade, alimentando diálogos, construindo relações de confiança com esta “casa comum” e com o outro, empenhados em promover a sua dignidade. Diálogos que não são, simplesmente, práticas diplomáticas, mas promovem a reconciliação com a Criação e o próximo. Constituem um desafio permanente para aqueles que querem estar no mundo e aí atuar como artesãos da paz que brota da experiência autêntica e gratuita do amor geminado na fé. 

A sinodalidade leva ao ímpeto de “Não nos podermos limitar a esperar, temos de organizar a esperança” e por isso devemos redescobri-la, anunciá-la e construi-la. Isto inclui todos, também a Igreja e os seus membros, pois “sem esperança, seriamos administradores, equilibristas do presente e não profetas e construtores do futuro.” (Papa Francisco, A Esperança Nunca Desilude, 146)

“Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28, 20). Estas últimas palavras do Evangelho de Mateus lembram o anúncio profético que encontramos no seu início: “... e hão-de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco” (Mt 1, 23; cf. Is 7, 14). Deus estará ao nosso lado todos os dias, até ao fim do mundo. 

Esta é a nossa Esperança! Vivermos em Deus, por Cristo, animados pelo Espírito Santo!

 Movidos por uma conversão continua, a esperança tornar-se-á para o cristão o seu ADN, o seu documento de identidade e “modus vivendi” com todos e para todos!

 Pe. Jorge Fernandes

“Bifanas à padre Armindo”

Nós gostamos de conforto, segurança, talvez ainda herança dos 300 mil anos de ansiedade*, dos tempos em que a humanidade tinha que sobreviver e correr pela própria vida. Procuramos sempre um estado em que não é preciso estar em tensão. Rotinas, hábitos, seguranças, trazem conforto e sentimento de segurança e a certeza que vai ficar tudo bem!

O padre Armindo tinha um particular gosto pelas bifanas do Sr. Gaspar, o hábito e a relação entre ambos cresceu ao ponto de ele entrar e pedir apenas uma “bifana à padre Armindo”. Recordo que levei uns amigos lá e puxei do mesmo cartuxo: “saí uma bifana à padre Armindo”. Ouviu-se um coro de “deves pensar que és famoso”, que rapidamente foi substituído pelo espanto e pelo repetir do pedido.

Todos temos os nossos hábitos e particularidades. Desde que me lembro que cortei o cabelo no mesmo sítio, até ir para o seminário e a logística se tornar mais difícil e eventualmente ter de ganhar coragem de ir a outro lado. Foi em Coimbra, pertinho do Seminário. Era pouco mais velha que eu, o que a colocava com idade para ser filha da minha cabeleireira do costume – “não podia ser bom sinal”.

“- Então e como quer o corte?”
Foi a primeira vez que disse “eu sei lá menina”, nunca em 26 anos me tinham perguntado, era sempre sentar, esperar e pronto.

Tive vergonha de perceber que não sabia responder, creio que lhe terei dito que queria que fizesse com que estivesse assim daí a 2 meses.

Ficou-me a memória do desconforto de não saber. Hoje continuo a fazer o mesmo, não mudei muito, embora já tenha trocado (duas vezes), continuo a tender manter a segurança e afinal não doeu, ninguém morreu e não foi o fim do mundo.

Fiquei sempre alerta para o perigo, que advém com o nosso desejo de conforto: pode fechar-nos em nós mesmos, limitar até o nosso crescimento, seja no estilo ou no paladar da bifana da meia-noite. Até o padre Armindo teve de trocar e arriscar novos sabores, novos sítios (e não se preocupem que na Batalha há sítios bons).

O ano novo já leva 2 semanas, a febre das luzinhas e dos propósitos de Ano Novo, começa a abrandar, voltamos à rotina e aos hábitos. Mas o mundo gira muito depressa, a vida tem sempre surpresas a acontecer e ainda falta muito ano que, qual onda da Praia do Norte, ainda está só a ganhar força, ou como se diz na Marinha Grande: alão.

Vamos ser desafiados, confrontados e desinstalados. Já não vivemos em modo de sobrevivência, mas a ansiedade que nos acompanha há 300 mil anos continua bem presente. Quem sabe se não pode ser esse um bom propósito: abrir-me à novidade, manter um espírito crítico e uma atitude positivos: antes de rejeitar a mudança, perguntar se não poderá ser algo de positivo que acrescenta valor e abre horizontes, para uma vida que se sonha ser, segura e estável, mas em crescimento atrás da estrela do Oriente que conduziu os Magos, os tais que não eram reis.

Pe. Patrício Oliveira

* Santos, Gustavo, 300 Mil Anos de Ansiedade, Porque herdámos o stress e a ansiedade e o que podemos fazer para os gerir”, Lua de Papel, Junho de 2022

Ser Esperança 

No passado domingo em todas as dioceses do mundo se realizaram celebrações que inauguravam a abertura do Ano Jubilar 2025 e que tem como temática, proposta pelo Papa Francisco, “Peregrinos da Esperança”.

A Esperança!

Constatamos que é o dinamismo da esperança que mexe com o todo da nossa humanidade. Nascemos, crescemos e se podemos prescindir de muitas coisas, da esperança não é o caso.

Viver é mais do que deambularmos entregues á nossa sorte. É saber que nascemos com a centelha da esperança, em que auguramos que somos desejados e esperados. Depois vai-se desenhando pela vida fora, com a tomada de consciência de quem somos,  a tela do nosso ser na relação com os outros, o mundo e a transcendência, pintada com as aguarelas da esperança, de modo que, a cada dia, essa vida se torne mais apetecível.

Como diz o velho ditado: “a esperança é a última a morrer”. Vivermos da esperança não nos poupa às canseiras do trabalho, nem nos subtrai às responsabilidades das escolhas que fazemos, contudo, dá-nos ânimo que muitas vezes vai para lá dos nossos desejos e vontades.

Mais do que as esperanças políticas, sociais, culturais ou científicas, descobrir a esperança do Evangelho torna-se missão para aquele (particularmente para o cristão)  que tem a ousadia de querer “construir a sua casa sobre a rocha firme” (cf. Mt. 7, 24-27).

É esta Esperança que tem o poder de nos manter acordados, fazendo tudo para não vivermos acomodados a este mundo. Sabemo-nos peregrinos por cá e em Deus esperamos a vida eterna (Sl. 130, 5-8).

“Todos esperam. No coração de cada pessoa, encerra-se a esperança como desejo e expetativa do bem, apesar de não saber o que trará consigo o amanhã. Porém, esta imprevisibilidade do futuro faz surgir sentimentos por vezes contrapostos: desde a confiança ao medo, da serenidade ao desânimo, da certeza à dúvida. Muitas vezes encontramos pessoas desanimadas que olham, com ceticismo e pessimismo, para o futuro como se nada lhes pudesse proporcionar felicidade.”(Spes non confundit,1).

Precisamos urgentemente de a reencontrar ou encontrar: a Esperança.

De a encontrar e de deixar que ela nos envolva, nos revigore e tome conta do nosso ser.

Nem sempre é fácil encontra-la! E talvez, exactamente por isso, o verdadeiro sentido de tudo seja nós procurarmos, todos os dias, sê-la.

Ser essa esperança!

É preciso fazer com que a esperança exista, seja verdade: um sorriso do coração; dar a mão para fazer levantar; um abraço que envolve; falar e escutar com amor; cuidar com ternura, ser vida que cuida.

Pequenos – grandes gestos que sâo transformadores da própria vida e da vida daqueles por quem são tocados. E tudo isto é esperança a acontecer, a existir, a ser verdade para alguém e para nós também.

Esperança...

Que nunca nos falte e nunca a deixemos faltar.

Talvez seja esse o verdadeiro sentido de tudo. E o nosso também!

O Covid faz 5 anos...

Parece mentira. Não parece que as memórias daqueles dias estão meio difusas e estranhas? A perceção do tempo completamente errada, talvez como se fosse uma outra vida. “Vamos todos ficar bem” ouvíamos e queríamos acreditar que diante da tragédia que se abateu entre nós, seríamos capazes de construir novos caminhos, novas pontes, que ligariam quem eramos ao que gostaríamos de ser.

Depressa caiu por terra. Mas ainda demos luta! Compras passadas pelas janelas, companhia à distância, horas no zoom, criatividade, celebrar de igreja vazia, mas cheia de povo.

Mas o desejo e o sonho de uma nova oportunidade mantem-se.

Estamos a meio dos festejos. Uma leve pausa entre os festejos Natalícios e a festa do novo ano, o bolo Rei ainda não está demasiado duro.

Estes são dias propícios ao sonho, à expectativa, do que virá lá no novo calendário, o que nos espera. Um novo começo tem sempre algo de bom. Imagino que já todos tenhamos tido a mesma fantasia: um novo começo, uma nova oportunidade, “voltar a ter 20 anos e saber o que sei hoje!”.

É verdade que essa esperança pode ficar soterrada no espírito negativo do desânimo e do cinismo: “nada de novo debaixo do sol” diria o amigo Qoelet.

Mas apesar de tudo, se fomos capazes de sobreviver ao Covid somos capazes de tudo. Não foi como gostámos? Nunca é.

Nestes dias é inevitável olhar para trás, olhar para a frente.

O arrependimento e o que ficou por fazer tendem a falar mais algo. Mas como diz o S. Paulo: “não seja assim entre vós”.

Olhemos com misericórdia, com os olhos de Deus para o ano velho e com esperança para o novo.

Não será tempo oportuno para arrumar gavetas e cantos do coração que protelamos há tanto tempo? Se não agora, quando?

Temos a oportunidade de alinhar o nosso sonho com o sonho de Deus para nós. Ele que permanece apesar das voltas da história e das nossas trapalhadas e continua a desafiar-nos a tentar de novo, uma e outra vez. O Rocky Balboa diz que o que nos define não são as vezes que caímos, mas sim as vezes que nos levantamos.

A terra gira (em contramão) damos mais uma volta ao sol, e somos demasiado preciosos para protelar, para deixar para um dia que dê mais jeito.

Feliz ano novo!

Um Natal feito de Esperança

Passa um ano e outro ano e não nos cansamos de nos maravilharmos com a Luz que resplandece no meio das noites e trevas deste mundo que parecem ser cada vez mais densas e que se manifestam nos nossos medos, depressões, desesperanças e que teimam invadir o coração e o olhar. Mas a Luz que se levanta neste tempo de Natal faz brilhar para nós a Esperança  que nos coloca na expectativa de uma humanidade renovada.

Não nos cansemos de admirar a Luz!

Os dias precipitam-se para o grande dia: o de Natal! As cidades estão cheias de luzes, músicas natalícias que se insinuam aos nossos ouvidos como melodias que inspiram a uma mudança de vida! As casas tornam-se mais percetíveis pelas cortinas de luzes que são expostas no exterior. Das formas mais tradicionais (presépios, estrelas, sinos...) às mais modernas (caixas de presentes, renas, Pai-Natal...) há no ar um sentimento comum de alegria, paz, esperança e amor.

A cada Natal somos chamados a relembrar as razões da nossa Esperança, na certeza de que Jesus vem ao nosso encontro, quer nascer no nosso coração e fazer parte da nossa vida. É um caminho exigente…

Quando tudo corre bem, facilmente nos enchemos de nós mesmos e das nossas conquistas e, tal como há dois mil anos, não temos espaço para o Deus que se faz menino. Mas quando o fardo é pesado e vivemos acontecimentos dolorosos, facilmente caímos no desânimo e apaga-se a luz que ilumina o nosso caminho. Tal acontece facilmente quando estamos fechados em nós mesmos e perdemos a beleza e novidade que o Menino nos quer mostrar com o seu nascimento na pobre gruta de Belém.

 Sim, quando o Natal se resume a uma festa com jantares e iluminações, é uma questão de tempo para se tornar apenas isso e nada mais.

O Papa Francisco desafia-nos a reencontrar a esperança que vem da confiança no amor de Deus. Disse-nos, no Angelus de 01 de Dezembro, ali: 

«Todos nós, em tantos momentos da vida, nos perguntamos: como ter um coração “leve”, um coração desperto, um coração livre? Um coração que não se deixa esmagar pela tristeza? (…) Com efeito, pode acontecer que as ansiedades, os medos e as aflições sobre a nossa vida pessoal ou pelo que se passa no mundo hoje, pesem sobre nós como pedras e nos atirem para o desânimo. Se as preocupações tornam pesado o coração e nos levam a fechar-nos em nós mesmos, Jesus, pelo contrário, convida-nos a levantar a cabeça, a confiar no seu amor que nos quer salvar e que se faz próximo em cada situação da nossa existência, pede-nos que Lhe demos espaço para redescobrir a esperança.».

A esperança ocupa na vida dos Homens, de modo especial na do cristão, a par das outras virtudes teologais, fé e a caridade, um lugar central.

Mais do que um aspeto otimista sobre o futuro, a esperança é uma virtude enraizada numa confiança profunda em Deus. A esperança é a âncora da alma, que nos segura nas dificuldades e nos permite manter no caminho do seguimento de Jesus. Por isso, viver na esperança não significa ignorar as dificuldades do mundo, mas confiar que Deus está sempre ao nosso lado, mesmo nos momentos de maior escuridão. Num mundo marcado pela incerteza, pela guerra, o egoísmo, a autossuficiência, todos somos chamados a ser testemunhas da Esperança.

Em Cristo, há sempre caminho para uma vida nova: o menino Jesus que adoramos na época do Natal oferece-nos a esperança, a paz e o amor nos nossos momentos difíceis!

Como Maria que trouxe Jesus no seu ventre, neste Natal, somos desafiados a confiar mais em Deus e a ser semeadores de Esperança nos caminhos da vida.

Portadores desta esperança que se faz Menino e que quer nascer no nosso coração, deixemos que a grande Luz brilhe na nossa vida e, contagiados por ela, sejamos sinal de esperança, de alegria e de amor para todos quantos se cruzam connosco.

É com este sentir que deixamos os votos de um Santo Natal a todas as famílias da nossa cidade. Que a Luz que desponta nesta noite santa brilhe em todos os lares e as inunde de Esperança.

 Padre Jorge Fernandes, Vigário Paroquial

Em tempos de Artificial intelligence, a Felicidade Artificial

Domingo Gaudete
É assim denominado o III Domingo do Advento.
A razão é que gaudete! (alegrai-vos!), é a primeira palavra, há muitos séculos, do cântico de entrada deste domingo: «Gaudete in Domino semper!» («Alegrai-vos sempre no Senhor!»), convite tomado de Fl 4,4-5, que dá a este domingo – justamente a meio do caminho de Advento – um tom de alegria e esperança, porque já está próximo o Senhor.

Este domingo tem um paralelo com o IV da Quaresma, o Domingo Lætare. Os paramentos dos ministros, neste dia, podem ser cor-de-rosa e pode-se dar um maior relevo aos adornos e à música, apesar de se estar a meio de um tempo caracterizado pelo uso moderado destes elementos.

 

“ - Já tens o paramento rosa pronto?”
É a pergunta da praxe por estes dias.
A resposta é sim, está pronto. O paramento.
O resto ainda vamos a ver!

Gaudete, alegrai-vos, é a palavra de ordem para este Domingo, o terceiro do Advento.

A coroa fica quase pronta, há luzes e mercadinhos de natal. Este ano comprei o Conto de Natal de Charles Dickens. O amigo Ebenezer Scrooge, e o Grinch, se forem de outra geração, assombram-me com muita frequência. Porque há mercados de Natal e paramentos rosa (ou rose em inglês que faz um trocadilho com Jesus rose from de dead), mas a alegria corre o risco de ser um tanto ou quanto artificial, porque tem que ser, ou porque é “cá dentro”: porque o que importa mesmo “é espiritual e não precisa cá dessas coisas folclóricas!”

Mas, e o entusiasmo? Aquele frio que leva a sorrir e que aquece o coração?

É certo que já não somos crianças para ficar entusiasmados com as prendas.
Ou os filhos já são grandes e já não é a mesma coisa
Ou andamos cansados e exaustos e é mais um conjunto de coisas para tratar e ver se não falta nada para ninguém ficar ofendido e vai ser outra luta para saber onde vai ser a ceia se na mãe ou na sogra e, e, e mais alguma coisa que apareça, que parece evaporar todo o entusiasmo que era suposto estarmos a sentir.
No caso deste(s) padre(s), é a azáfama, as confissões e as visitas que se multiplicam. A probabilidade estatística que assombra com a possibilidade de velório no 24 ou no 25.

É nesta altura que o Ebeneezer e o Grinch passam por mim, e uma voz vinda lá do lado dos rebanhos: estás a ficar parecido.
É bem verdade que há muito abuso, alguns quase no limiar do excesso. Mas um bocadinho de espírito de festa? Se calhar também nos ajuda.
Quanto mais não seja para ajudar a criar um ambiente diferente da azáfama, que depois nos predisponha a deixar-se tocar de modo verdadeiro pelo verdadeiro Espírito.
Sim, porque acredito que também pode haver Ebeneezers espirituais, o risco de um Natal que seja demasiado frugal é real e perigoso.

Olhemos o presépio: se a aflição do parto longe das condições ideais é uma realidade, não é menos real que Maria e José terão experimentando uma alegria profunda (sobrenatural) que os terá surpreendido, apesar de tantos motivos para aflição.

Talvez seja essa alegria que evocamos. O roxo penitencial alivia e fica mais suave, os nossos olhos contemplam uma manjedoura ainda vazia, mas entusiasmam-se com a certeza de que Alguém especial vem aí, algo especial quer acontecer na nossa vida.

Como Maria e José talvez nos encontremos divididos entre a aflição e a espectativa.

Este domingo recorda-nos que a aflição não leva a melhor sobre nós. Deixemos que se acenda uma pequenina torcida, aquela que ainda fumega, afastemos os fantasmas do Natal passado e o do futuro (que também é bem assustador) e aproveitemos a presença do presente (sim, com todas as camadas de significado que a palavra tem).

O anúncio dos pastores concretiza-se, hoje, no nosso empenho, no nosso entusiasmo, na coragem de bater aquela porta, aquela visita, aquele telefonema.

A alegria Gaudete, o Gáudio[1] que celebramos não se mede só pela vontade de vestir uma camisola horrível, mas brota da certeza que mesmo com o mundo virado do avesso, Ele vem, Ele chama, Ele toca, Ele transforma, Ele perdoa, Ele bate à porta. E isso, deve fazer-nos sorrir à maneira do nosso querido padre doutor Branco que dizia em relação às anedotas: quem riu não percebeu, quem sorriu entendeu.

Sorriamos com esperança.


[1] n.m. Do mesmo significado de contentamento, folguedo, júbilo ou regozijo;