Partilharam comigo, esta semana, um pequenino vídeo, já com alguns anos, mas muito curioso. É uma espécie de metáfora para falar de Deus, da sua dimensão, da nossa vida.
É um diálogo entre dois bebés ainda no ventre materno. Um deles pergunta se haverá vida para além do parto. Talvez até conhecessem “a mãe”! ao que o outro responde que não há provas de que haja vida para além do ventre. Como iriam alimentar-se sem o cordão? Conhecer a mãe? Loucura!
O primeiro sonhava em comer com a boca, andar talvez... interagir com a mãe.
É bem claro onde isto nos leva e tem o seu quê de interrogação.
Olhava para o Evangelho deste Domingo e lá encontrava a Transfiguração de Jesus no Monte.
Aquilo que Ele faz é permitir aos seus discípulos entrever a vida pós-parto, que Deus sonha para a sua tão preciosa humanidade e que Jesus veio fazer acontecer.
E que tarefa complexa querer levar alguém para um sítio que não faz parte da sua imaginação ou do seu vocabulário até! Lá dizia o S. Paulo: loucura para os gentios, escândalo para os Judeus.
Pelo que, para além do carácter catequético que o texto tem, vejo sempre aqui um gesto inteligente de Jesus, como quem partilha fotos da viagem, ou da comida do restaurante favorito, onde deseja levar um amigo.
Mostrar-lhes o seu rosto glorioso, ainda que não fossem capazes de o perceber, foi oportunidade de criar um desejo no coração daqueles 3 apóstolos (e só aqueles).
Várias pessoas me perguntam como tem sido estes dias agora sozinho e o meu pensamento é sempre o mesmo: eu vejo uma paróquia no seu corpo glorioso. Como Deus a sonhou, como Deus precisa dela. E sinto-me um daqueles três discípulos: privilegiado pela confiança, mas sem saber bem o que vejo ou como chegar lá. Uma coisa é certa precisamos chegar lá e seremos capazes de chegar lá.
Tem sido desafiante manter a agenda e os hábitos, especialmente em tempo de visita ao domicílio para ver os nossos compadres que não se juntam a nós na Eucaristia. Mas sempre que vejo aqueles rostos de “pena do padre”, penso nos discípulos e naqueles bebés: não conhecemos, nem imaginamos uma realidade nova!
Eu estou a escrever isto já bem fora das horas da minha sesta nocturna.
Estes dias vários foram os funerais que foram acompanhados aos cemitérios pelos nossos ministros extraordinários da comunhão, que também já presidiram a alguns funerais (e a imagem da Nossa Senhora não caiu!)
Houve quem ficasse indignado por não ver lá o padre, mas também não soube dizer o nome do padre que lá faltava, como também, e isto é conversa para outras núpcias, nunca ninguém sabe quem é o padre para marcar o funeral.
Mas houve também apreço na surpresa, de quem se sentiu acompanhado, de quem apreciou a experiência humana de quem conduziu aquele momento de oração.
E tudo isto porque estamos habituados a fazer as coisas de certa maneira e nem sabemos bem porquê. Ninguém sabe explicar por que motivo é que tem que ser um padre a presidir a uma celebração que não é sacramento. Era boa ideia? -Era. Foi uma coisa que surgiu também para sustentar o clero? -Se calhar houve por aí no passado umas histórias de mercantilismo religioso.
Na próxima semana o Shemá será orientado pela equipa e pelos jovens para que eu possa ficar na igreja a confessar quem precisa. Porque isso só eu posso fazer. E só os sacramentos dependem totalmente de mim (e nem todos! Porque até o matrimónio pode ser presidido por um leigo. Mas estejam descansados que não vai ser possível o avô presidir ao matrimónio de um neto. Calma lá com isso!)
Mas verdade seja dita a paróquia precisa mudar. As paróquias precisam mudar.
- mas senhor padre, a Marinha é tão grande! O padre Jorge foi para 2 paróquias, com várias capelas. O que não nos falta por aí são paróquias com muito mais capelas do que nós temos, com maiores dificuldades geográficas, sociais e de deslocação.
Esta transformação vai doer a todos. E precisamos de ver o horizonte maior da nossa Diocese.
Sinto que estamos num momento em que nos rebentaram as águas. E embora o plano esteja definido, anda tudo louco à procura do saco para levar para a maternidade e à procura das chaves do carro que estão na mão esquerda entaladas entre a carteira e o saco e o casaco. O pânico cega e transtorna até as mentes mais preparadas.
Este Domingo Jesus permite entrever o seu Rosto Glorioso, peçamos a graça de entrever uma paróquia diferente. Uma paróquia mais inteira, mais capaz, mais responsável, mais organizada, mais proactiva, mais viva, mais presença de Deus!
Não faltará nada a ninguém, mas efetivamente é uma vida nova, uma realidade que estamos a construir sem ter manual de instruções específico.
Da minha parte e onde as forças me chegarem tudo farei para ver esta paróquia tornar-se um farol de esperança, abraçar o convite de Deus.
Estou certo de que posso contar com todos vós para passando o susto das águas rebentadas, o pânico da viagem, enfrentar as dores de parto que culminarão imperiosamente no abração terno da nova criatura.
Padre Patrício Oliveira