Ouvir o Silêncio da voz do Senhor

O nosso senhor Dom Serafim teve, por muitos anos, vários heterónimos, com estilos e assuntos distintos para os seus escritos e a sua revista Síntese (se não falha a memória). Uma das que mais corria entre os seminaristas, no tempo em que eramos já poucos, mas mais que agora, começava: “da varanda do meu presbitério vejo”.

Eu não tenho uma grande varanda, mas os anos de padre têm sido local de encontro e de vislumbre muito interessante da nossa humanidade. E dou por mim a ver padrões, de comportamento, de dores, de dificuldades e outras que tais.

Esta semana vi expressar de uma forma muito mais articulada e eloquente uma das minhas intuições. Falavam do perigo do vazio das vidas Hiper-ocupadas.

Um conceito que associo sempre aos tubarões que precisam dormir em água corrente porque se pararem morrem (a malta da bilogia marinha que me perdoe).

Hoje há sempre ruído à nossa volta. E quando não é do ambiente que rodeia, procuramo-lo.

Música de Natal nas ruas e nas lojas, o ruído urbano no nosso caso. E quase estranhamos não ouvir nada. Quase tanto quanto o constrangimento de ficar em silêncio sem nada para dizer, seja com amigos, seja com Deus.

Até na fila do pão se puxa do telefone. E já não é um fenómeno de miúdos apenas. É natural o movimento de puxar do telefone para ver as notificações, o Facebook, o Instagram, o tempo, as notícias ou o mail do trabalho, ou um dos mil trezentos e cinquenta e quatro grupos de whatsapp...

Por estes dias, celebrando o Dia do Pai e a Solenidade do S. José, o silêncio voltou a ser chamado à nossa atenção, afinal de contas é a melhor citação de S. José: “______”.

Mas já não estamos habituados e estranhamos. Embora, se diga que seja um sinal de relações saudáveis: a capacidade de partilhar tempos de silêncio – sem vontade de cortar uma artéria ou fugir, acrescento eu.

Penso também nos nossos diálogos com Deus, nas nossas intenções, petições e pedinchices: sol na eira, chuva na horta, o Euromilhões para pagar o centro pastoral, paciência a quilo... então mas e dar tempo à resposta?

Na adoração ao Santíssimo há que haver um esquema, leituras para ir fazendo e pautando o ritmo do momento. E se demora, puxamos a Bíblia, as leituras do dia, a liturgia das horas, puxamos o terço. Tudo para não parar, vale tudo para não estar quieto.

Porque quando paramos podemos ouvir coisas que não queremos e nem é por mal. “agora não” “não estamos com cabeça” ou outra qualquer desculpa.

Recordo o desequilíbrio nos anos de vida de Jesus, trinta em silêncio, para três de acção e voz activa. Lá diz o povo que temos dois ouvidos e uma boca, para ouvir mais do que falar.

Em tempo penitencial, de conversão interior e de maior proximidade com o Senhor Jesus, intuímos já os vários silêncios que a Páscoa trará. Sobretudo dos discípulos incrédulos com o anúncio da paixão, o anúncio da traição, da mão no prato, o escândalo do “serei eu Senhor?”, a oração no horto, o silêncio da multidão diante do julgamento de um inocente, até ao silêncio do último suspiro do Senhor. 

Talvez possamos pedir o dom da coragem, de silenciar, dar espaço à resposta de Deus. nestes dias a meio caminho da Páscoa tenhamos a coragem de ouvir o que Senhor diz a quem se propõe escutar a sua voz silenciosa.

 Estou seguro que haverá agradácveis surpresas.

Pe. Patrício