Não é preciso muito para fazer um rápido exercício de memória e recordar momentos da nossa vida em que uma única palavra tocou as nossas fundações mais profundas. As memórias da primária: “És burro!”, “Feio”, “Gordo”, “Não vales nada”, “odeio-te”; “Obrigado”, “Gostei muito”, “Amo-te”...
Ficam marcadas na memória, trazem angústia e esperança, conforto ou uma dor profunda que nos faz duvidar de nós. Mas uma só palavra pode também fortalecer e ser a diferença entre a vida e a morte.
“A quem iremos Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna”, dizia S. Pedro; mas Aquela Palavra já estava na criação, aquela Palavra foi instrumento de criação dos céus, da terra, das esferas celestes, tudo o que se vê e não vê.
Aquela Palavra chamou Samuel, mas era também a brisa suave que fez Elias sair da gruta. Aquela palavra atraía multidões: curiosos, doentes, coxos, gente sem esperança, que vinham de todo o lado, que se colocavam em peregrinação para ouvir.
Penso sempre quão marcante terá sido para leprosos e marginalizados que era evitados a todo custo, ignorados, e que de ouvem Jesus dirigir-se-lhes, talvez pela primeira vez em anos.
O que terá sentido a Samaritana quando percebeu que Ele estava à espera dela!
A Palavra continua à nossa espera tal como esperou a mulher Samaritana, continua a passar entre nós e pára quando chamamos, mas também chama por nós quando subimos a uma árvore para o ver melhor.
Talvez para nós hoje não seja tão óbvio ou tão visual, mas a Palavra é a mesma e está até mais perto e acessível. Li em tempos que toda a Bíblia é uma carta de amor que Deus escreve à humanidade. Os mais velhos recordar-se-ão, e aposto que muitos ainda as guardam.
Neste Domingo da Palavra de Deus, o Papa Francisco desafia-nos a lê-la com novos olhos. É carta para cada um de nós. Foi escrita para a nossa história e para as nossas circunstâncias. E adapta-se sempre, e é sempre nova, porque é viva e Eficaz, porque é Deus que se torna presente, ou porque nos abre caminho à oração. Seja um Salmo que rezamos como se fosse nosso, seja rever-nos em qualquer uma das personagens que ali são descritas. Ou porque simplesmente revelam como Deus fala.
Num mundo tão marcado pela escuridão, para nós que nos sentimos tantas vezes sozinhos a Bíblia que temos ali guardada na estante pode bem ser o bilhete para sair dessa desolação.
Neste dia, peçamos novos olhos, novo olhar, um coração disponível que faz uma pergunta apenas: o que diz Deus à minha vida hoje, com esta palavra.
Pe. Patrício Oliveira