“Bifanas à padre Armindo”

Nós gostamos de conforto, segurança, talvez ainda herança dos 300 mil anos de ansiedade*, dos tempos em que a humanidade tinha que sobreviver e correr pela própria vida. Procuramos sempre um estado em que não é preciso estar em tensão. Rotinas, hábitos, seguranças, trazem conforto e sentimento de segurança e a certeza que vai ficar tudo bem!

O padre Armindo tinha um particular gosto pelas bifanas do Sr. Gaspar, o hábito e a relação entre ambos cresceu ao ponto de ele entrar e pedir apenas uma “bifana à padre Armindo”. Recordo que levei uns amigos lá e puxei do mesmo cartuxo: “saí uma bifana à padre Armindo”. Ouviu-se um coro de “deves pensar que és famoso”, que rapidamente foi substituído pelo espanto e pelo repetir do pedido.

Todos temos os nossos hábitos e particularidades. Desde que me lembro que cortei o cabelo no mesmo sítio, até ir para o seminário e a logística se tornar mais difícil e eventualmente ter de ganhar coragem de ir a outro lado. Foi em Coimbra, pertinho do Seminário. Era pouco mais velha que eu, o que a colocava com idade para ser filha da minha cabeleireira do costume – “não podia ser bom sinal”.

“- Então e como quer o corte?”
Foi a primeira vez que disse “eu sei lá menina”, nunca em 26 anos me tinham perguntado, era sempre sentar, esperar e pronto.

Tive vergonha de perceber que não sabia responder, creio que lhe terei dito que queria que fizesse com que estivesse assim daí a 2 meses.

Ficou-me a memória do desconforto de não saber. Hoje continuo a fazer o mesmo, não mudei muito, embora já tenha trocado (duas vezes), continuo a tender manter a segurança e afinal não doeu, ninguém morreu e não foi o fim do mundo.

Fiquei sempre alerta para o perigo, que advém com o nosso desejo de conforto: pode fechar-nos em nós mesmos, limitar até o nosso crescimento, seja no estilo ou no paladar da bifana da meia-noite. Até o padre Armindo teve de trocar e arriscar novos sabores, novos sítios (e não se preocupem que na Batalha há sítios bons).

O ano novo já leva 2 semanas, a febre das luzinhas e dos propósitos de Ano Novo, começa a abrandar, voltamos à rotina e aos hábitos. Mas o mundo gira muito depressa, a vida tem sempre surpresas a acontecer e ainda falta muito ano que, qual onda da Praia do Norte, ainda está só a ganhar força, ou como se diz na Marinha Grande: alão.

Vamos ser desafiados, confrontados e desinstalados. Já não vivemos em modo de sobrevivência, mas a ansiedade que nos acompanha há 300 mil anos continua bem presente. Quem sabe se não pode ser esse um bom propósito: abrir-me à novidade, manter um espírito crítico e uma atitude positivos: antes de rejeitar a mudança, perguntar se não poderá ser algo de positivo que acrescenta valor e abre horizontes, para uma vida que se sonha ser, segura e estável, mas em crescimento atrás da estrela do Oriente que conduziu os Magos, os tais que não eram reis.

Pe. Patrício Oliveira

* Santos, Gustavo, 300 Mil Anos de Ansiedade, Porque herdámos o stress e a ansiedade e o que podemos fazer para os gerir”, Lua de Papel, Junho de 2022