à sombra da barragem...

Sento-me à sombra da barragem
Do lado da secura
Não para resolver a sede, porque sei
Que a sede não se cura

 E tentei escalar esta parede
Tentei furar até ao outro lado
Mas nada há pior para um homem
Que querer viver saciado

Sento-me à sombra da barragem
Do lado dos desertos
Como um mendigo de mão estendida
E de olhos muito abertos 

E perdi a voz a gritar para o alto
Juntei entulho para fazer um monte
Mas se quero abolir a sede
Quem me guiará até à fonte
 

Permaneço no deserto
Eu não vou tomar atalhos
 

Sento-me à sombra da barragem
Do lado do desejo
Vivo de uma invencível esperança
No que não sei, não toco, não vejo
 

E pedi respostas já prontas
Como um ferro dobrei a verdade
Foram barras de uma prisão maior
É que a sede é condição da liberdade
 

Sento-me à sombra da barragem
Do lado da espera
Sempre me soube como lixo, o plástico

Que a pressa gera 
E já provei o desespero
E já se esgotou a coragem
Mas não se vive senão da sede
Sentado à sombra da barragem
 

Permaneço no deserto
Eu não vou tomar atalhos
 

Permaneço no deserto
Eu não vou tomar atalhos

- Pe. Duarte Rosado, SJ

  

Cruzei-me com o trabalho do padre Duarte muito recentemente, para minha grande vergonha, e tem sido uma lufada de ar fresco.

Está em grande destaque o trabalho Isaías e a Fragilidade, onde traz melodia ao livro de Isaías, mas as letras de autor, revelam uma humanidade tão profunda e tão verdadeira, que parecem dar voz a pensamentos e sentimentos que nem sabia ter, mas que estão cá dentro e trazem peso aos dias.

Temos partilhado com a comunidade a eminência das mudanças, nomeações, re-organização da Diocese, da Paróquia e tudo o mais que isso implica. Sinto um processo necessário, mas doloroso, que valerá a pena, mas que será desafiante.

E sinto as reservas, as dúvidas, os apegos e as dificuldades de abraçar algo novo mesmo sabendo ser para melhor.

Sei que precisamos de uma forte ligação com a raiz da nossa Fé, com a Palavra, com a pessoa de Jesus e uma enorme atenção às moções do Espírito que sopra, conduz e suporta a Igreja que somos e a que gostávamos de ser e sobretudo a que Deus quer que sejamos.

A humanidade da fragilidade do coração humano, que o padre Duarte tão bem canta, toca-me profundamente nestes dias. Sinto-a como minha, provocada por mim ou pelas circunstâncias, mas minha, que me abala, me faz tremer e duvidar de tudo.

E mesmo sem ver, que agora o futuro me parece muito opaco, sei que do outro lado há um Deus que chama, que aguarda pacientemente, tal como o Pai do(s) filho(s) pródigo(s): à espera que percebamos que é a confiar nele que encontramos a nossa casa.

É ali que encontraremos a igreja que Deus sonha para nós, uma casa que oferece paz, tranquilidade, conforto, segurança, mas também a coragem de sair para mais longe.

Mas hoje, hoje sento-me à sombra da barragem e temo que possa estar do lado errado à procura do Pai que aguarda que me(nos) encontremos.

Rezemos por estes dias, pela comunidade, por um coração disponível que se deixe amar e transformar.

padre Patrício Oliveira

(Para quem tiver tempo e paciência e auscultadores para ouvir fica aqui o trabalho do padre Duarte)