Padres nossos

Cruzei-me quase por acidente com o texto do padre Augusto Pascoal, que partilho aqui e senti-o como meu. A residência de que ele fala sempre mexeu comigo a um nível muito íntimo, que me perturba profundamente, mais do que eu gostaria de admitir. Durante vários anos tive até muito dificuldade em entrar lá sem que me viessem algumas lágrimas mais atrevidas.

Nunca conheci muito dos padres que lá passaram, a não ser pelas histórias. O meu contacto com o presbitério é relativamente recente e antes disso só conhecia o meu pároco, o saudoso padre Manuel Ferreira e os vizinhos. Recordo com especial carinho o padre Zé Luís que sempre conheci em Seiça, que nos acompanhava nas actividades da pastoral juvenil da vigararia e a quem ganhei 5€ num jogo de autocarro numa dessas viagens. Só este ano é que ele passou à condição de emérito.

Mas ali na casa do clero, tudo me soava a injusto. Talvez por ter uma impressão tão positiva dos padres que conhecia, ver aqueles homens, reduzidos a uma sombra do que eram, magoava-me; talvez por me identificar ou antever ali um futuro longínquo. (não é muito diferente em qualquer lar onde vá, é diferente apenas por ser menos pessoal, os padres mais velhos, são para nós, os ainda novos, uma espécie de tios).

O padre Pascoal fala hoje em nome próprio das dores e dos medos que a humanidade carrega e transporta mais ou menos dolorosamente. A busca do sentido, para a vida e para as dores e alegrias. Podemos dar-lhe nomes diferentes, mas a dor é a mesma.

Por estes dias, com o Papa internado e com todo o ambiente de morte anunciada que a comunicação social nos vai impingindo, numa altura de profundas mudanças na nossa diocese, dou por mim a olhar para estes homens lá daquela “residência”, os que conheci na força da vida, os que vi decair; penso nos que foram meus professores, até penso nos meus dois mais novos, na véspera do mais novo sair de casa e sinto uma oração silenciosa por todo eles. Sento-me a escrever e junto o meu nome à lista dos que confio à oração dos meus paroquianos favoritos.

Tenho observado todo este processo com preocupação, surpresa e alguma apreensão. Custa-me ver as resistências, as conversas e as dores de todo o presbitério que se vê obrigado a reinventar-se sem saber bem como nem em quê. Um presbitério que enfrenta as mesmas dificuldades e resistências que as comunidades tiveram e que tanta luta deram a estes mesmos padres. Somos todos tão parecidos. Gostamos todos das nossas seguranças, estruturas e hábitos e lutamos com determinação para não as perder. Mesmo quem prega que “o Espírito sopra onde quer”.

O padre Albino dizia-me em Minde que a geração dele tinha sido educada e treinada para ser “o padre contra o mundo!” e alegrava-se com a diferença que via hoje em dia. mas na verdade o presbitério é ainda todo ele marcado por esta mentalidade de ser o que a psicologia chama “o super-homem”, fortes, determinados, sempre capazes, incansáveis, capazes de chegar a tudo, a centralizar e a micro gerir paróquias, serviços e movimentos. O super-homem só corre bem na banda desenhada e essa é uma lição que estamos todos a aprender da forma mais dolorosa possível. Sobretudo ao perceber que fizemos a fortaleza da solidão casa de habitação permanente e não apenas refúgio para dias difíceis e agora somos obrigados a mudar. A mudar para sobreviver e assumir que fomos vítimas de nós mesmos. Que não vimos os sinais, que não soubemos ler a diminuição das vocações e as comunidades a afastarem-se da responsabilidade.

Hoje estamos num ponto de viragem particularmente assustador, mesmo que confiantes na graça de Deus e na acção do Espírito Santo, é um momento é solene e difícil. A vós, comunidade cristã, não se pede já apenas que rezem pelo Papa e por nós clero, mas que voltem a casa, que voltem a assumir o cuidado e o governo das comunidades, não porque somos poucos padres, mas porque há coisas que os leigos sabem fazer tão melhor que nós. Partilhem da criatividade, deixem-nos ajudar-vos a fazer das paróquias casa e escola de comunhão.

Que se possa dizer em breve também de nós: “vede como eles se amam”.

Estou convicto que por detrás de todo este ruído está um Deus presente que desafia e conduz a uma igreja nova. Diferente daquela que conhecemos, eu e o padre Augusto. Já não é uma realidade para daqui a futuro mais ou menos distante, já começou. E já começou há mais tempo do que queremos admitir.

Abracemos este novo futuro com coragem, confiança e sobretudo de coração aberto ao sussurro do Espírito que continua a indicar o caminho.