Como diria o falecido Raúl Solnado “vinha eu na minha vida muito quentinho” quando me cruzo com uma muy reverente paroquiana, com quem tinha partilhado o dilúvio no cemitério, e pecador me confesso: cobicei-lhe a broa que trazia na mão da loja da Amélia Emília (sem patrocínio).
Acontece que a apanhei de surpresa e de boca cheia, partilhou comigo com uma alegria contagiante: senhor padre apanhou-me com a boca na botija! Vim buscar uns rojões para a janta e cheiravam tão bem que não resisti e já comi um! Estão óptimos!”
Eu nem queria acreditar que aquilo me estava a acontecer, e ainda a pensar na broa e feliz de ver um sorriso tão genuíno perguntei: “Hoje”. Creio que o rojão ainda não terá descido e desconfio que o jantar não terá sido tão aprazível como planeado.
Imaginam o resto da conversa.
Ainda acrescentou: “havia de me confessar, mas nem era por causa dos rojões.”
Fiquei a pensar no episódio que me caiu no colo desta forma tão espontânea. Efetivamente não comer carne nas sextas da Quaresma é fácil. Vivemos num país que tem mais de mil maneiras de cozinhar bacalhau (e acho que não incluí as receitas de bacalhau preto).
Efectivamente os tempos mudaram, bem como o acesso a variedade e quantidade de alimentos.
A Conferência Episcopal Portuguesa lá recorda que este exercício espiritual se pode concretizar na abstinência de carne. E a coisa está tão enraizada que permanece forte na memória coletiva. Quem me dera que o preceito da Eucaristia semanal e a confissão regular mantivessem essa presença na memória do povo.
Incomoda-me sempre a forma mecânica como vejo o preceito ser usado e anunciado: carne não, um peixinho fresco grelhado (caro que dói), ou marisco! O marisco pode-se!
E afinal porque não se pode comer carne ninguém pergunta.
A igreja recorda sempre a Sexta-feira Santa em todas as sextas, em abono da verdade o preceito é indicado para o ano todo (assunto para outro dia). recordamos a morte de Cristo por nós, a sua entrega na Cruz. Podemos ver aqui uma ligação espiritual com a carne de Jesus? Talvez. É importante? Sim, claro, é parte da nossa história e da nossa tradição.
Mas o que queremos mesmo é unirmo-nos ao Seu sacrifício. E sentirmo-nos amados, atrevo-me a dizer até: esmagados por tamanho amor e coragem. Dizemos que morreu por nós com demasiada facilidade.
Queremos sobretudo honrar este sacrifício. Morreu por nós porque nos ama. Porque Viu (Vê...) em nós um valor que talvez nem nós mesmos somos capazes de reconhecer. Deus apostou forte em nós!
Então tudo isto serve apenas para “puxar” por nós. Fazemos sacrifícios e penitências para nos emendar. Para um exame de consciência profundo e honesto. Reconhecer o quanto falta para chegarmos a ser o que aquele Jesus de Nazaré viu em nós. E diante disso, pedimos o dom de querer mudar.
Penitência, pelos pecados, jejum do que está a mais. O exercício de não comer carne, abster de pequeninos gostos, servem para nos lembrar DAQUELA Sexta-feira e que não podemos desistir de sermos inteiros/humanos/santos, ninguém O quer defraudar.
Não comer carne é fácil, pedir perdão é que é complicado.
Não matar, não roubar, não fazer mal a ninguém está muito aquém dos mínimos olímpicos do ser gente séria.
A dificuldade está nas coisas pequenas. As mentiras piedosas, as impaciências, o dedo rápido a julgar, o preconceito, a presunção de não ter pecados e ser melhor que os outros, a certeza de ser o único condutor que sabe entrar numa rotunda.
Difícil não é comer lombinhos de salmão em vez de bife da vazia, difícil é calçar os sapatos do outro.
Difícil é dar do que tenho e não do que me sobra. Difícil é não gastar para partilhar, não é dieta nem esmolazinha, é partilha e solidariedade, de moeda e de tempo.
Dificil é dar-me um pouco, mais até do que merecem
Mas foi isso que Ele fez!
Incomoda-me a beatice, a soberba de cumprir preceitos e coleccionar indulgências e olhar de lado para alguém que nunca ouviu falar da novena do terço dos santos mártires do penedo do norte de África, enquanto se alimentam tricas e ciúmes e maledicência disfarçada de frontalidade.
Mas como, ao contrário de certas pessoas, não comeram rojões: está tudo bem!
Ser católico é desconfortável! E dificilmente podemos andar descansados porque cumpri as minhas obrigações todas e tenho as contas em dias.
O católico caminha vergado pelo quanto nos falta e pela vergonha de teimar em fazer as mesmas coisas, mas caminha fortalecido pela confiança num Pai misericordioso que não o deixa cair e ficar na lama do seu próprio pecado.
É um caminho de tensão, que há-de ser alimentado pelos Sacramentos, pela oração, pela escuta da Palavra e pelos irmãos de caminho.
Que estes dias, sejam de esperança, de coragem, de dar de nós, de voltar para fora.
Vamos ter catequeses Quaresmais, perguntemos, partilhemos. Sejamos curiosos acerca do sentido das tradições.
Hoje no Evangelho perguntavam a Jesus: porque não jejuam os teus discípulos? Eu gostava de perguntar: “Porque jejuam vocês? Só porque sim?”
Não seja só dieta. Seja uma mudança profunda no modo de viver e de abraçar o Amor de Deus que olhamos pregado na Cruz.
Pe. Patrício Oliveira