Mudar o mundo é um objetivo muito altruísta, muito bonito, uma visão muito romântica, até podemos dizer muito encantadora. Ao querermos empreender em tal missão talvez possamos descurar o quanto isso requer de nós, mas é um ideal que faz arder o coração. Será que conseguiremos mudar algo sentados no comodismo do nosso sofá, sem abandonarmos nada, sem sacrificarmos nada?
A resposta parece-nos lógica: não!
O Papa Francisco na Vigília de oração da Jornada Mundial da Juventude realizada em Cracóvia, Polónia, em julho de 2016, falou-nos sobre a atitude de “sair do sofá” para sermos atores da mudança do mundo:
“Julgar que, para ser felizes, temos necessidade de um bom sofá. Um sofá que nos ajude a estar cómodos, tranquilos, bem seguros.(...) Um sofá contra todo o tipo de dores e medos. Um sofá que nos faça estar fechados em casa, sem nos cansarmos nem nos preocuparmos.
Jesus não é o Senhor do conforto, da segurança e da comodidade. Para seguir a Jesus, é preciso ter uma boa dose de coragem, é preciso decidir-se a trocar o sofá por um par de sapatos que te ajudem a caminhar por estradas nunca sonhadas e nem mesmo pensadas, por estradas que podem abrir novos horizontes, capazes de contagiar-te a alegria, aquela alegria que nasce do amor de Deus, a alegria que deixa no teu coração cada gesto, cada atitude de misericórdia. (...) Caminhar pelas estradas do nosso Deus, que nos convida a ser atores políticos, pessoas que pensam, animadores sociais; que nos encoraja a pensar uma economia mais solidária do que esta.(...) Deus espera algo de ti, Deus quer algo de ti, Deus está à tua espera.”
O que disse aos jovens naquela noite a todos nós se dirigia!
Jesus já nos tinha deixado claro a atitude a que somos chamados:
“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, o que perder a sua vida por minha causa e do Evangelho, salvá-la-á.” (Mc 8, 34-35)
No seguimento das palavras de Jesus devemos pensar e avaliar se realmente estamos dispostos a mudar o mundo custe o que custar inclusive a nossa “liberdade”. Cristo usa a palavra “quiser”, entenda-se que nem todos querem viver esta vida de renúncia, que implica escutar a sua voz, respeitar e obedecer às suas ordens sem questionar se para isso temos que morrer para nós mesmos.
È um dado adquirido e humano que renunciar aos projetos, vontades e desejos pessoais se trata de um exercício difícil, doloroso e, para lá disso, suportar humilhações, perseguições, traições e manter a alegria, harmonia e paz é uma situação que se apresenta quase utópica.
Será que estamos dispostos a isso, sem colocar a Deus limites, como: “olha Senhor é melhor parar por aqui...nesse sentido não consigo prosseguir...não tenho coragem, não sou capaz, não tenho qualidades para...! e com essas desculpas querer fazer as coisas apenas á minha maneira?
É certo que estamos num mundo em mudança e de muitas mudanças no mundo, onde Deus e o Evangelho aparecem como idealismos ultrapassados e que bloqueiam a felicidade humana.
O mundo mudou muito, principalmente nos anos que abrem o século XXI. Não se pode negar a consequência dessa transformação no panorama cultural, social, político e religioso ao nosso redor. Por isso, entender o que se passa deve ser a primeira reação daqueles que querem mudar o mundo, não de uma maneira qualquer, mas no seguimento de Cristo e por Cristo... numa atitude de discípulos missionários dispostos a fazer disseminar a Boa Nova que nos foi deixada pelo Mestre.
Hoje nas nossas comunidades, ou mesmo dentro das nossas casas, existem por causa dessas mudanças, pessoas com dificuldades em confiar nas outras, intolerância em grau extremo ou um tipo de tolerância/fechar de olhos que não é mais do que complacência com as situações de guerra, fome, solidão, abandono, abusos, autossuficiência, que degradam a dignidade da pessoas humana. Pior que esta “tolerância” é a indiferença que deflagra no coração e mente dos homens. Uma indiferença que mata!
A denúncia e o combate à indiferença perante a injustiça e o sofrimento dos outros tem sido um dos motes do discurso e da ação do Papa Francisco. Na sua encíclica Fratelli Tutti, o Papa fala-nos duma “indiferença acomodada, fria e globalizada, filha duma profunda desilusão” [30], falsamente justificada pelo determinismo ou fatalismo em que nos deixamos, tantas vezes, cair [cf. 57].
O amor que dá vida à fé em Jesus não permite que os seus discípulos se fechem num individualismo asfixiador, escondido nas pregas duma intimidade espiritual, sem qualquer efeito na vida social (cf. FRANCISCO, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 183).
Podemos então dizer que para o cristão também nada é indiferente! Seguindo as pegadas do Mestre, é preciso que nos esforcemos por ser verdadeiros discípulos que irradiam a alegria do Evangelho nas sua vidas, que contagiam os outros com a sua palavra e paz, que transformam vidas com o seu amor e fraternidade. Isto é viver o discipulado com autenticidade, na fidelidade á tradição, perscrutando caminhos novos onde o Evangelho se apresenta como bálsamo para a humanidade.
Viver como verdadeiros discípulos missionários é mostrar a coerência entre o que pregamos e o que vivemos, levar a que os que escutam a nossa mensagem possam ser conduzidos ao Mensageiro.
Se assim agirmos, se a nossa ação e, consequente discipulado, tiver as marcas reais de Jesus Cristo, o Evangelho continuará a ser, como de fato o é, a mensagem que salva, liberta, esclarece, limpa, satisfaz e eleva o ser humano à sua dignidade original.
Sejamos discípulos autênticos. E demos o testemunho autêntico que leva a gerar novos discípulos, tudo para a maior glória de Deus!
Li e gostei e por isso deixo abaixo este belo texto, de autor desconhecido, que vem ao encontro da nossa reflexão:
“Quando era jovem, queria mudar o mundo. Achava difícil mudar o mundo, então eu tentei mudar a minha nação. Quando descobri que não conseguia mudar a nação, comecei a focar-me na minha cidade. Não conseguia mudar a cidade e como um homem mais velho, eu tentei mudar a minha família.
Agora, como um velho, percebo que a única coisa que posso mudar sou eu mesmo, e de repente percebo que se há muito tempo eu tivesse mudado a mim mesmo, eu poderia ter causado um impacto na minha família. A minha família e eu poderíamos ter causado um impacto na nossa cidade. O impacto deles poderia ter mudado a nação e eu poderia, de fato, ter mudado o mundo.”
Queres mesmo mudar o mundo?
Não te esqueças que “Deus espera algo de ti, Deus quer algo de ti, Deus está à tua espera.”!