O tempo de Deus, da Igreja e, em especial, da liturgia é diferente do tempo comum dos homens. Ainda há dias contemplávamos, com tanta ternura, o Menino Jesus recém-nascido e já estamos a celebrar o Batismo de Jesus e, nele, o nosso próprio batismo. O Evangelho de S. Lucas proporciona-nos uma narração lindíssima deste momento que é fundamental para compreendermos e interiorizarmos a Boa Nova.
1. Começa por nos dizer o Evangelista: “O povo estava na expetativa”.
A expetativa, a espera e a esperança são condições para que Deus aconteça na nossa vida. Falamos de uma espera humilde e confiante: algo vai chegar. Não sabemos bem o que é, mas sabemos que só pode ser algo de muito bom, porque vem do Pai. E nós, perante o Evangelho deste Domingo, continuamos expectantes ou achamos que estamos apenas a assistir a eventos históricos, já concretizados noutros tempos e com outros protagonistas? Nesse caso, restar-nos-ia pouco mais do que um papel de espetadores passivos que vivem as coisas em segunda mão, ou não as vivem de todo. “Que bom teria sido assistir ao Evangelho ao vivo!”, pensamos. Mas a Boa Nova atualiza-se de cada vez que a escutamos, desde que consigamos esvaziar a nossa mente e o nosso coração das certezas e seguranças que abafam as expetativas, para de novo o Senhor nos preencher e alegrar. Louvado seja Deus que nos oferece, em tantas ocasiões, uma visão renovada e renovadora da Verdade!
2. Como quase tudo o mais das Sagradas Escrituras, o Batismo de Jesus é sobejamente conhecido e parece-nos que nada tem a revelar-nos que não saibamos já. João veio à frente de Jesus, preparar o Seu caminho, oferecendo um batismo simples; o Senhor foi batizado Ele mesmo e Deus fez um milagre para deslumbrar o povo. Hoje, nós somos batizados para recordar tudo isto. Está a história contada. Será assim?
Sempre que nos lemos a Palavra, somos desafiados a refletir: “O que tem isto a ver connosco, comigo, hoje? O que está Deus a querer dizer-nos, a dizer-me a mim, de novo?” Se não mantivermos a expetativa a que se refere o Evangelho deste Domingo, a resposta às duas questões é “nada”. Estamos apenas a recordar histórias passadas.
3. O povo estava expectante, ansioso. Conhecia as promessas que vinham do Antigo Testamento acerca do Messias. Circulavam muitas ideias sobre quem seria e o que viria fazer o Ungido de Deus. Seria um chefe militar, um rei, um sumo sacerdote, um curandeiro? Cada um tinha as suas necessidades, as suas expetativas. O povo, coletivamente, alimentava a esperança de que fosse sacudido o jugo do invasor romano e restaurada a antiga glória de Israel. As classes altas esperavam ampliar a sua posição e ver reforçado o seu estatuto. Os sacerdotes acreditavam no seu acesso preferencial a Deus, o que fazia deles mediadores entre os homens e o Alto.
João Batista esforçou-se para que não o confundissem com o Messias. Disse claramente ao que vinha: “Está a chegar quem é mais forte do que eu, e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias”. Do mesmo modo, explicou a diferença entre o batismo (incompleto, mas importante) que ele estava a fazer e aquele (pleno) que seria trazido pelo Messias: “Eu batizo-vos com água (…) Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo”.
Mas os homens são impacientes e têm tendência para ouvirem o que querem, não o que está a ser-lhes realmente dito. As suas expetativas já traziam um perfil definido do Messias, e João, em todo o seu estranho modo de viver e de se apresentar, parecia corresponder a esse perfil. O que interessava o que ele próprio, João, dizia?
Nós não somos diferentes: queremos um Messias à nossa medida, à imagem do que achamos que Ele deve ser. A nossa expetativa nem sempre é humilde e confiante. Inevitavelmente, ficamos desiludidos e frustrados. “Deus faltou-me, a Igreja falhou-me”, lamuriamo-nos.
4. “Quando todo o povo recebeu o batismo, Jesus também foi batizado.” Primeiro o povo, todo ele. Só depois Jesus. Porquê assim?
Antes de mais, assalta-nos a dúvida: Cristo, o autor e fonte dos Sacramentos, precisava de ser batizado? Se sim, como é que lhe faltava ainda algo? Era porventura um messias inacabado? Se não precisava, para que serve este episódio? Há quem diga que Jesus estava a cumprir as Escrituras. E estava, no sentido de consumar a Promessa de Deus e de corresponder às expetativas mais legítimas e puras do povo. Não estava a representar um papel, a fazer um teatro.
Talvez a pergunta deva ser feita de outra forma: era Jesus que precisava de ser batizado ou era o povo que precisava de ver confirmadas as promessas feitas através de todos os profetas até João Batista?
Jesus tem enorme apreço por João. Noutras passagens dos Evangelhos, chama-lhe mesmo “o maior dos nascidos de mulher”, “o Elias que estava para vir” (Mt, 11, 11-14). Mas também diz que “o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele”, indo ao encontro do que que afirma o próprio João: “não sou digno de desatar as correias das suas sandálias”. A humildade é que faz que João seja grande e é Deus quem lhe dá lugar no Reino do Céu, não os seus muitos méritos.
Um pormenor cheio de significado: Jesus é batizado depois de todo o povo, não antes. Há um caminho a percorrer, uma pedagogia que Deus nos propõe, uma ordem própria para as coisas. Ninguém corre antes de saber caminhar; o leite materno prepara-nos para os alimentos mais substanciais. Primeiro, o povo tinha de escutar João e de receber o seu batismo. Só depois, nessa terra fecunda, germinaria o Messias.
Ao submeter-se ao batismo da água, Jesus valida a pregação e o batismo de João. Ele é o Messias, mas há todo um processo para Ele chegar aos homens e os homens a Ele. Há etapas que não podem ser saltadas. Isto é tão verdadeiro para nós, este Domingo, como para aqueles homens, naquele momento que se renova no nosso próprio Batismo, na vivência dos Sacramentos e na escuta atenta da Palavra de Deus. Não estamos a recordar nem mesmo a fazer uma reconstituição histórica: estamos a fazer de novo, a atualizar, aqui e agora.
Enquanto não percebermos e vivermos desta forma, a Bíblia não passará de um conjunto mais ou menos interessante de relatos de um passado distante e cada celebração será apenas um ritual evocativo, piedoso, mas sem efeito prático em nós, indivíduos e comunidades.
5. Eis que se dá o milagre, quando Jesus é batizado: “Enquanto orava, o céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma pomba.” Tantas coisas a acontecerem num momento aparentemente tão breve e simples!
A Pomba, símbolo da paz, da simplicidade, contrasta com a grandeza do momento. Temos de ver para lá do espetacular. Jesus fez muitos milagres, não para nos cativar pelo aparato e sim para nos mostrar o Seu Amor, para mostrar que a Sua Palavra é viva e atua em nós. Temos de procurar ver mais além e de escutar com mais atenção.
Naquele momento, Jesus “orava”: não recebe passivamente o batismo de João, mas fala com Deus. Podemos, sem abuso, imaginar que estaria a professar todo o seu amor pelo Pai e a pedir pelos que testemunhavam o momento – o que ali estiveram presentes e nós, que também somos testemunhas. A ação de Deus em nós, na nossa vida, depende da nossa atitude. É Ele quem faz o “trabalho”, mas nunca contra nós, apesar de nós, sem nós. Ele, o Todo-Poderoso, precisa de nós, do nosso sim, da nossa disponibilidade, para fazer em nós maravilhas!
Assim sucede no Batismo de Jesus. Desce sobre Ele o Espírito Santo, a corrente de amor entre o Pai e o Filho, de forma visível, acessível para nós, tão dependentes que somos dos sinais que recebemos pelos sentidos. Mas Deus sabe como somos e das nossas limitações, e apresenta-se-nos de formas que conseguimos alcançar!
6. E Deus completa o milagre, falando de viva-voz, claramente: “Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus toda a minha complacência”. Jesus sabe quem é, mas Deus não cessa de lho confirmar. Quem ama, reafirma o seu amor uma e outra vez, não para calar dúvidas, mas pela alegria de anunciar esse amor e por saber da alegria que vai renovar em que o ouve. O Pai responde à oração do Filho – e responde à nossa oração!
Jesus confirma João e Deus-Pai confirma Jesus. O Messias apresenta o Precursor e Deus apresenta o Messias. O milagre não está no aparato, no espetáculo da Pomba que torna visível o Espírito nem na voz divina que os pobres ouvidos das testemunhas conseguem ouvir. Está, sim, em que tudo isto suceda por nós, para nós, para que sejamos cativados pela Palavra e pelo Amor, para lá da grandiosidade e da excecionalidade do momento. Custa-nos porventura a crer, mas o Batismo de Jesus repete-se hoje, para nós, que escutamos o relato bíblico e o revivemos. Repete-se no batismo de cada criança ou adulto, a quem o Pai diz “Tu és meu filho, tu és minha filha”. É essa a identidade de Jesus, o de Filho de Deus, e é essa a identidade de cada um de nós.
7. O Batismo é o primeiro dos Sacramentos, não por uma mera questão de ordem temporal, mas porque é o que nos confere identidade e imprime carácter e aquele que nos inicia na Vida que Deus nos propõe. O nosso nome fica para sempre ligado a esse momento e a essa identidade, daí falarmos em nome cristão, nome de batismo ou nome próprio: próprio da pessoa e da sua relação especial com o Pai. É tudo tão rico, está tudo tão ligado, e nós ficamos tantas vezes pela superfície, pela porta de entrada que são os rituais, pela efemeridade da festa mundana!... Termos a nossa identidade, o nosso nome, intimamente ligados ao Batismo e a identidade messiânica de Jesus é tão mais do que isso!
8. Ao mesmo tempo, as coisas são mais simples do que as fazemos. Deus está tão mais próximo do que O imaginamos! Jesus anula definitivamente a distância entre o Céu e a terra, entre o sagrado e o mundano. Serve-se de matérias familiares como a água para se fazer presente, para nos abrir a mente e o coração para o Pai. Torna-se-nos presente na Eucaristia, a partir do pão e do vinho tão simples. Comunica-nos a sua graça por meio dos Santos Óleos, no Crisma, na Unção dos Doentes. A voz de Deus ressoa-nos nos ouvidos até ao dia de hoje.
9. O milagre é esse: Deus que que estar connosco, no Seu Filho, fazendo-nos viver o Seu amor através do Espírito Santo. Deus comunica connosco. Deus comunica-se a nós.
Vamos reviver o nosso Batismo, escutar a voz de Deus como se fosse a primeira vez e deixar que a Sua graça seja reavivada nas circunstâncias concretas da nossa vida.
Lúcio Gomes
10 de janeiro de 2025