Neste domingo celebra-se em todas as dioceses do mundo o Domingo da Palavra e este ano o tema está imbuído no espírito deste tempo de Jubileu que estamos a viver. O Papa Francisco propôs como mote para reflexão a frase do salmo 119 “Espero na tua Palavra”.
Uma nota enviada à Agência Ecclesia * refere que “trata-se de uma iniciativa profundamente pastoral que o Papa Francisco desejou para que as pessoas compreendam como é importante, na vida quotidiana da Igreja e das comunidades, a Palavra de Deus”.
O texto do Evangelho desta semana, escrito por S. Lucas (Lc1, 1-4;4,14-21), vem sublinhar esta presença viva, intemporal e atual da Palavra de Deus e não só do Novo Testamento, onde a Palavra de Deus encarnou em Jesus Cristo, mas também no Antigo Testamento.
Jesus depois de ser batizado, cheio do poder do espirito Santo, e de iniciar a sua vida pública, regressa à Galileia, mais propriamente na Sinagoga de Nazaré, onde como todos os judeus, ao sábado, Jesus vai ouvir e partilhar a Palavra de Deus. O texto refere que Jesus “ensinava”. E neste dia Jesus “levantou-se para fazer a leitura “e foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías. E depois de ter lido o texto “«O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor», Jesus afirma “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura que acabais de ouvir".
Esta Palavra “Hoje” vem até aos nossos dias e no início do texto de Lucas ele faz uma dedicatória a um “Teófilo”, cujo nome significa “amigo de Deus”. E todos nós somos amigos de Deus. Por isso aplica-se a cada um de nós, na nossa vida, na relação com os outros e connosco próprios.
Há um paralelismo com o Antigo Testamento, onde os homens inspirados pelo Espírito de Deus orientam o povo para Deus, que é onde encontrarão, o caminho para a Terra Prometida e esperam Aquele que há-de vir e Jesus diz “Cumpriu-se Hoje”. Jesus assume-se como sendo o Enviado de Deus para dar cumprimento às profecias messiânicas e anunciar a sua missão que veio transformar o Mundo, e ainda hoje, se lhe abrirmos a porta e O deixarmos entrar Ele transforma as nossas vidas.
Isaías utilizou na sua escrita imagens reais de pessoas que na época viviam à margem, mas estão, ainda hoje, existem do ponto de vista material, mas também espiritual, na nossa sociedade.
Os pobres são uma realidade cada vez mais presente no nosso mundo, quer por falta de bens essenciais para uma vida digna, quer de saúde, quer os pobres em espírito, aqueles que ainda vivem como cegos, porque não querem ver. Os cegos não vêm com olhos, mas têm os outros sentidos muito apurados. Mas os que não somos verdadeiramente invisuais, não só, não conseguimos ainda entender a Palavra de Deus, bem como perceber a mensagem de Jesus, como demonstramos muita falta de gratidão por tudo o que Deus nos dá , quer de forma consciente ou inconsciente e pelas nossas ações. Muitas vezes afastamos Jesus da nossa vida, tornamo-nos cativos e oprimidos no e pelo nosso próprio egoísmo e não vemos verdadeiramente o que é importante na vida: o Amor. E como diz Paulo na 1ª. Carta a João” Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor" ( 1 João 4,8).
Este Texto ajuda-nos a fazer uma auto-reflexão. A olhar para a nossa vida e a perguntarmo-nos se estamos a viver de acordo com os valores que Jesus nos ensinou e se estamos efetivamente a amar os outros como Ele nos amou. Mas para isso temos de saber como é que Ele nos amou e, portanto, também nos questiona se estamos a ler a Sua Palavra e a dar-lhe verdadeiramente importância.
Ajuda-nos também a reconhecer a Missão divina de Jesus e olhar para a Cruz e na sua morte e Ressurreição reconhecer o seu perdão, o seu amor e a viver a nossa cruz também dessa forma. A ver na sua mensagem uma mensagem de libertação, esperança, salvação e uma inspiração para a ação. Apesar de todas as dificuldades que temos no nosso dia a dia, Ele está sempre connosco para nos dar a força necessária para não desistir. Ele inspira-nos a segui-lo, a querer ser e fazer como Ele. A sentir-nos chamados a algo maior, a servir e a fazer a diferença na vida dos outros que estão à nossa volta.
O Papa Francisco dizia aos jovens, nas JMJ em Lisboa em 2023 “Não tenham medo!”. Mas não se aplica apenas aos jovens, é para todos nós. Estando mais perto de Deus, da sua bondade e misericórdia, para connosco próprios e para com os outros, a vida corre de uma forma mais leve e sem medos, porque Ele está connosco. E não só de forma individual, mas também na comunidade. Tal como Jesus, nós recebemos o Espírito Santo pela primeira vez no nosso batismo e reforçamos a sua presença ao receber o sacramento do Crisma que nos incentiva, tal como Jesus aos Apóstolos, no dia de Pentecostes, a ir pelo mundo e anunciar a boa nova. E eles foram e criaram comunidades por onde passaram. E este texto exorta-nos também à vida em comunidade. A reconhecer que somos chamados a fazer parte de uma comunidade que partilha os mesmos valores e a mesma fé. Uma comunidade que caminha junta e que celebra junta esta vida nova em Jesus Cristo, todos os domingos na Eucaristia, e desta forma fazemos também como Jesus que ia à Sinagoga ouvir a Palavra de Deus. Encontrarmo-nos com a comunidade e com Ele, “pois, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt18,20) e fazemos memória D´Ele, como Ele nos pediu na última ceia.
"Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura que acabais de ouvir." A Palavra de Deus é intemporal e se a deixarmos agir na nossa vida, seremos verdadeiramente transformados por Ela. Uma Palavra que , diz-nos o Papa Francisco “ não se reduz a um livro, mas que está sempre viva e torna-se um sinal concreto e palpável”.
Grupo de catequese familiar do 4º. Ano
Centro de catequese de Picassinos
*https://agencia.ecclesia.pt/portal/events/jubileu-2025-dioceses-do-mundo-celebram-o-vi-domingo-da-palavra-de-deus/