Reflexão nas maldições
Hoje, ao ler a clássica passagem das bem-aventuranças, sinto que a maioria das pessoas detém-se na parte superficial das mesmas. Muitas pessoas pensam nas bem-aventuranças como sinónimo de uma “recompensa” divina por ser bom. Ou pior, vêm as maldições com um acto divino de vingança pelas pessoas que são más, sem nunca examinarem dentro de si a sua maldade. Todos nós somos a bênção e maldição em certo ponto da vida.
Todos nós bendizemos e amaldiçoamos com a mesma língua e com as mesmas mãos, e ainda assim somos como cegos no que toca a julgamentos, usando medidas diferentes na balança do que é justo ou condenável em mim e nos demais. E pior que este pensamento é a linha de pensamento que interpreta esta passagem como um Deus vingativo. Ora, a estes convido a que me respondam a uma simples pergunta: Como pode um Deus ser vingativo e ao mesmo deixar-se morrer pela criatura? Não vos soa a algo irracional? O amor é irracional. A vingança é estratégica. Ora se amássemos porque é racional, caiam por terra todas as razões para amar… todos falhamos.
Esta reflexão de hoje não é a típica reflexão de como devemos ser bons, ou não é uma reflexão para trazer apenas “sentimentos bons e calorosos”.
Convido-vos a olhar para as maldições, e compreender como são fruto do amor de Deus.
A perspetiva de Jesus quando diz “aí de vós” é um sentido de alerta, de agitar o barco. Quem ouve alguém a falar “aí de ti, meu filho”, não sente logo uma sentinela interna a berrar aos ouvidos da consciência que estamos a fazer alguma asneira?
Olhemos para a primeira maldição: “Mas aí de vós, os ricos, porque já recebestes a vossa consolação.” Muitos pensam, “esta é simples, Deus castiga quem tem muitas riquezas porque a riqueza não é compatível com Deus”. De certa forma não está errado, mas deixa escapar a essência e profundidade desta conclusão, podendo entrar em falácias. Para isso convido o leitor a refletir na passagem do Rico e do Lázaro. Vamos compreender, qual foi a razão da condenação do rico? Surpresa: não foi a sua imensa riqueza! – mas a incapacidade não ter tido compaixão por Lázaro, que era miserável. Deus não convidou o rico a fazer-se pobre ou a deixar tudo e vender aos pobres,
mas para partilhar a sua vida com Lázaro, ajudá-lo fisicamente, financeiramente e amorosamente e a erguê-lo como sendo seu semelhante (riquezas que começam, mas ultrapassam os bens materiais: a atenção, o carinho, a empatia – mas isso fica para outro tópico). A condenação do rico foi autoimposta, e é este o fundamento desta reflexão: As maldições não são divinas, mas fruto da nossa incapacidade de estarmos atentos ao próximo, a incapacidade de olhar para além de nós mesmos.
Seria contraproducente dizer que Deus quer que passemos fome para sermos saciados só no Céu. Não é Ele o mesmo Deus que nos deu o Maná?
Não é o mesmo Deus que multiplicou pães e peixe? Não é o mesmo Deus que fez a pesca milagrosa, de uma abundância tão forte que nos faz quase rasgar as redes? Então o que nos quer dizer é que nos condenamos a nós mesmos quando apenas saciamo-nos a nós, quer seja nos alimentos ou nos desejos.
Seria errado dizer que Deus não gostasse de nos ver sorrir, ou não é o mesmo Deus que libertou os judeus do Egipto e que brotou deles um cântico de alegria? Não é o mesmo Deus que dá a alegria pelo Espírito Santo, que irradiou nos Apóstolos, mesmo até à morte? O mesmo Deus que dá uma força interior e um motivo de sorrir a tantos santos, mesmo no meio de tribulações às quais não teríamos capacidade? E a alegria de Sara e de Isabel, ao serem mães? E a alegria das bodas de Caná? A Bíblia está cheia de grandes alegrias. Uma alegria amaldiçoada é por exemplo aquela que despreza o próximo, aquela que se alimenta das fragilidades dos outros para nos fazer sentir bem, porque somos mesquinhos.
Finalmente, a última maldição é simples: tantos de nós procuram a vaidade para se sentirem preenchidos, querem o reconhecimento dos outros. Mas a bom dizer evangélico: “em verdade vos digo, já receberam a sua recompensa”. Não sejais como os hipócritas, que gostam de ser vistos nas sinagogas, a rezar, a dar esmola, etc. Deus não condena os elogios, sobretudo os que são feitos com sinceridade e bem-intencionados, e igualmente incentiva à humildade no reconhecimento – Obrigado. Deus condena os que vivem em função da procura dos mesmos, e deixam que estes preencham os pobres egos e os inflamem para se sentirem completos.
Como espero que o leitor tenha concluído, não é Deus que castiga ou vinga-se das pessoas más – somos todos maus. Outra surpresa: (por isso se diz) estamos todos condenados! Mas a graça e a verdade do Evangelho e o exemplo de Jesus é que a salvação começa em deixar-se levar pelo Espírito quando grita em ti “ai de ti” que não é este o caminho que tenho para seres feliz! Abre o teu coração, deixa que a mensagem ecoe – é fruto carinho do Pai quando Ele te exorta - mesmo que não gostes, e deixa-te transformar pela graça que te convida à bondade, que te convida sempre a sair do egoísmo e a olhar para quem está à tua frente. A riqueza, o riso e a saciedade não são males em si mesmos, mas tornam-se uma "maldição" quando isolam a pessoa do amor e da partilha. E é por isso que “é difícil para um rico entrar no Reino dos Céus” porque a riqueza tende a endurecer e fechar corações.
Rico leitor, deixa que Lázaro te transforme. Não queiras ser tu o rico que transforma Lázaro. Pode ser que ambos aprendam a pobreza de espírito, a misericórdia e a mansidão.
Daniel Pinto