Encosto a bengala à parede, junto da porta, no canto habitual, sento-me à mesa de trabalho e fico por momentos a pensar naquele momento de conversa, a meio do corredor, com um dos meus companheiros de residência:
Tão alegre e dinâmico que ele era!
Encostado à sua bengala, muito mais artística que a minha, ergueu para mim uns olhos magoados, como se a vida lhe pesasse demasiado, e disse-me, em tom de quem conclui um raciocínio comum: Pois é: não prestamos mesmo para nada! Só para dar trabalho e estorvar.
Respondendo apressadamente, talvez, de facto, demasiado apressadamente, por não me parecer oportuna conversa mais demorada, disse eu, sem esperar resposta: importante será cada um dar o que tem para dar.
Lembrei-me da pequena estampa de “Santa Maria, Mãe do Amor Formoso” com um enorme chocolate que a Casa nos ofereceu, a propósito do chamado Dia dos Namorados; estampa na qual fora impressa esta súplica à Mãe de Deus:
“Que toda a minha vida, com o meu trabalho, alegrias e dores, seja um hino permanecente de amor!”
Trabalho, alegrias e dores… três palavras que podem sintetizar qualquer existência humana temporal, desde que surge no ventre materno até que se esconde no ventre da terra, donde, afinal, dito noutro contexto bíblico e patrístico, todos provimos.
Trata-se também de vocábulos que, como qualquer termo muito usado na linguagem corrente, transportam uma carga semiológica tão vasta e profunda, que qualquer um se pode enganar com eles, se não pensa um pouco nos contextos em que se empregam.
E, enquanto procurava que o sabor do chocolate pudesse transformar-se num apelo a olhar para o lado bom de tanta coisa que marca os meus dias, veio-me ao pensamento aquele número de “Caminho”: “Que a tua vida não seja uma vida estéril.- Deixa rasto. – Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor.
Apaga com a tua vida de apóstolo, o rasto viscoso e sujo que deixaram os semeadores impuros do ódio. – E incendeia todos os caminhos da terra com o fogo de Cristo que levas no coração”.
Ora! – diria o meu companheiro, se ouvisse isto -, pensas que São Josemaria escreveu isso a pensar naqueles que, como tu e eu, estavam arrumados a um canto, sem poderem fazer nada?
Escrito na sua juventude, foi, até à sua morte, incentivo para milhares, muitos milhares de pessoas, e continua a sê-lo… pessoas de todas as condições.
Em qualquer dos casos, não consta que Jesus tenha feito algum gesto ou dito alguma palava que justifique o descarte que, afinal, muitas vezes até nas instituições ligadas à Igreja, se tomem como destino das casas onde nos encontramos.
Por mim, prefiro sentir-me entre os que seguem o Mestre, com o desejo de escutar a sua palavra e perscrutar os seus gestos, consciente de que não me abandona ao descarte e que não me tem cá por se ter esquecido de mim, mas porque continua a contar comigo, quanto mais não seja, para que vejam como, apesar de tudo, continuo a confiar n’Ele.
Posso dizer, sem nenhuma espécie de presunção, que tenho no meu bornal, deslustrado pelos anos, com uma enorme quantidade de remendos, tudo quanto podem simbolizar os sete pães – algumas versões falam de cinco – do farnel do rapazito que, no relato evangélico, entregou o necessário para que Jesus, com a colaboração dos discípulos, matasse a fome à multidão.
Não me interessa saber o significado real da palavra multidão: se eram muitas ou poucas as pessoas que comeram do pão abençoado por Jesus e distribuído pelos discípulos; interessa-me mais não descurar o sentido bíblico do que nos conta o Evangelho: que há uma enorme desproporção entre a pobreza do farnel cedido pelo rapazito e a extensão do milagre, com o qual todos “comeram até ficarem satisfeitos, e houve sete cestos de sobras. Ora, eram cerca de quatro mil” (Mc 8, 8-9).
Sete pães! O que é isto para matar todas as fomes que assolam a humanidade, neste mundo em que até se procura tirar ao homem aquilo que o torna superior aos outros seres ad Criação? O que, no fundo, significa, não matar a sua fome, mas arrancar-lhe o direito de sentir essa fome.
É pouco, muito pouco, talvez mesmo ridículo, comparado com essa fome: precisar de uma bengala ou um una cadeira de rodas, para, depois de ter sido ajudado nas coisas mais elementares da higiene pessoal, chegar à sala das refeições, onde pode acontecer que tenham de me levar a comida à boca… é pouco, muito pouco; mas com esse pouco, que constitui a única missa que agora posso celebrar, abraçá-lo com Cristo e como Cristo na Cruz, não faz menos pela salvação do mundo do que aquilo que fiz durante muitos anos e que, de vez em quando me distrai cum uma vã nostalgia.
No meio disto tudo, só algo me provoca uma certa pena: que quem me ajuda com tanta dedicação – competência profissional e carinho humano – não repare no altar onde todos celebramos, cada qual à sua maneira, a Eucaristia que Deus nos pede.
P. Augusto Ascenso Pascoal