Mensagem do Senhor Bispo para a Quaresma 2025

Converter-se em esperança

A Igreja vive esta Quaresma no contexto da celebração do Ano Santo ou Ano jubilar, que celebra, a cada 25 anos, o nascimento de Jesus, motivo da nossa alegria, da nossa fé e da nossa esperança. Na Bula que convoca o Ano Jubilar, o Papa Francisco convida-nos a viver como “Peregrinos da Esperança”, que tem a sua origem em sermos discípulos e discípulas do Senhor Jesus, pelo Espírito que recebemos no batismo e nos acompanha ao longo da vida.

No tempo confuso em que vivemos, marcado pela desinformação e manipulação, por conflitos e guerras, incerteza e desorientação, este fundamento da esperança mobilizadora de compromisso ativo deve marcar o tempo quaresmal. A esperança que não desilude vem da consciência vivida da presença do Senhor Jesus que acompanha a Sua Igreja e caminha com cada um de nós, com as nossas famílias e com toda a Igreja. A vida em esperança consolida-se com a abertura à presença do Espírito, através da oração, da escuta/leitura da Palavra de Deus, da participação mais frequente na vida das nossas comunidades paroquiais e diocesana e, sobretudo, na sensibilidade para com aqueles que têm maiores dificuldades em esperar, por razões económicas e de saúde, isolamento, injustiça e exclusão.

A esperança não se constrói sentados no comodismo individualista; exige esforço e abertura a novas relações e parcerias fraternas e misericordiosas, como diz o Papa Francisco, na sua mensagem de Quaresma: “Os cristãos são chamados a percorrer o caminho em conjunto, jamais como viajantes solitários. O Espírito Santo impele-nos a sair de nós mesmos para ir ao encontro de Deus e dos nossos irmãos, e nunca a fechar-nos em nós mesmos”. É, deste modo sinodal, que o tempo de Quaresma pode transformar-nos em sinal e razão de esperança para os que mais dela precisam.

No meio das incertezas, sofrimentos e dúvidas, surgem também muitos sinais de esperança. Cito apenas alguns, no interior da nossa Igreja diocesana:

●      Os 15 catecúmenos acolhidos – uns oriundos do nosso meio, outros de diferentes países e culturas – que se preparam para receber o batismo na Páscoa. No domingo passado foram recebidos na Sé, assinalados com a cruz salvadora de Jesus e introduzidos na profissão da fé, pelo credo que nos une em Igreja. É um sinal e apelo da Igreja que continua a ser missionária e fundamento de esperança.

●      Os 18 candidatos ao Diaconado Permanente na nossa Diocese, que iniciaram este caminho com o apoio das suas esposas e famílias, como sinal esperançoso de uma Igreja que quer continuar ativamente no caminho do serviço e do anúncio do Evangelho. Em ligação com o precioso ministério do Bispo e dos Presbíteros, os Diáconos Permanentes serão um valioso elemento para a vida e a missão da nossa Diocese.

●      Centenas de irmãs e irmãos que estão sensíveis e compassivamente ativos na catequese, na liturgia, nos Conselhos paroquiais e diocesanos, bem como na Cáritas, nos Centros Sociais Paroquiais e em tantas outras organizações da Igreja e civis, como proximidade fraterna aos que sofrem a pobreza, o isolamento e a exclusão, continuando os gestos de misericórdia e de compaixão do Senhor Jesus.

●      Sinais especiais de esperança são os catequistas, dirigentes e acompanhantes dos milhares de crianças, adolescentes e jovens, em movimentos como o Escutismo – a celebrar 100 anos de presença na nossa diocese – a catequese, os movimentos juvenis, universitários e vocacionais, este ano com presença de religiosos em 20 escolas com o projeto “Sonhar com Deus”, numa ação conjunta do Seminário Diocesano, do Serviço Diocesano de Pastoral nas Escolas e seus professores e dos Institutos de Animação Missionária.

●      Sinal de esperança para a Igreja e o mundo é o Papa Francisco, nos doze anos do seu ministério petrino na Igreja, na aceitação da sua enfermidade, com coerência crente de dedicação e serviço e sobretudo de sólida esperança n’Aquele que passou pelo sofrimento e a morte, mas ressuscitou e vive para sempre.

●      Sinal especial de esperança é o início das Unidades Pastorais na nossa Diocese, que procuram criar espaços de partilha fraterna de paróquias, para a conversão pastoral da nossa Diocese. Como tantos dos outros sinais, trata-se apenas de um caminho inicial e de um desafio de participação ativa, corresponsável e sinodal, envolvendo os diversos carismas e serviços na vida das comunidades em ordem ao crescimento da vida e da missão da Igreja.

Cada um destes e de tantos outros sinais de esperança representa também um desafio a cada membro da nossa Igreja diocesana: Bispo, Presbíteros, religiosos e religiosas, leigos e leigas. Neste tempo de Quaresma, que o exemplo destes irmãos e irmãs desperte no coração de todos os batizados o mesmo generoso propósito de participar, em espírito de comunhão, serviço e missão, no caminho de conversão sinodal que o Espírito está a propor a toda a Igreja pela boca do Papa Francisco.

A peregrinação Diocesana a Fátima, este ano fixada para sábado, 5 de abril, tem sempre um caráter de caminho de conversão. Que todos os que podem participem pessoalmente nesta peregrinação diocesana da Esperança, no Ano Santo jubilar que estamos a celebrar. Unamo-nos à oração da Virgem Maria, que se manifestou aos pastorinhos nesta nossa terra, e peçamos que saibamos dizer sim, como ela, ao convite de Deus para tornar Cristo presente neste nosso mundo. Caminhemos, como verdadeiros filhos e filhas, ao ritmo do seu coração materno, que acompanhou os discípulos nos caminhos da primeira missão.

Um sinal de conversão quaresmal é a partilha dos dons que recebemos de Deus para atender quem mais precisa. Na nossa Diocese de Leiria-Fátima, costumamos partilhar o produto destas ofertas quaresmais, em favor de necessidades no interior da nossa Diocese e de outras situações particularmente carenciadas, na Igreja e no mundo. Este ano serão para os seguintes destinos:

a) Para acudir às vítimas do terrorismo e dos desastres naturais na Diocese de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Esta situação aflitiva tem causado muitos mortos e feridos, rapto de milhares de pessoas, especialmente jovens, destruição de igrejas e casas e centenas de milhares de refugiados.

b) Para apoio ao projeto “Ondjoyetu” da nossa Igreja de Leiria-Fátima que, desde há muitos anos, desenvolve uma parceria fraterna com a Diocese do Sumbe, em Angola, onde se encontra o nosso Padre David Nogueira Ferreira e que tem contado com a generosa participação de muitos leigos das duas dioceses.

Que o Senhor abençoe o caminho quaresmal da nossa Igreja de Leiria-Fátima e nos converta em esperança, na sua Igreja e no anúncio da alegria do Evangelho.

                                                                                + José Ornelas Carvalho

                                                                                 Bispo de Leiria-Fátima