Não me é fácil arranjar uma forma de começar o texto de forma positiva, talvez porque estes dias nos deixam a todos um tanto ou quanto sisudos e com razão. É verdade que não queremos alarmismos, mas certamente todos nós andamos bastante apreensivos em relação ao futuro, padres incluídos!
Mesmo para os adeptos do “copo meio cheio” este tempo tem sido um verdadeiro desafio. É justamente esse desafio que me tem inquietado nos últimos dias. Hoje de manhã escutava uma conversa on line acerca do futuro das nossas comunidades e como continuar a levar a nossa missão por diante; um dos intervenientes contava então uma pequenina história sobre dois homens, dizia ele que um era rico, outro era pobre: diante da necessidade de comprar algo, ambos tinham exatamente a mesmo quantia disponível, o pobre diz: “não tenho que chegue, desisto”; o rico interroga-se: como vou fazer para conseguir?”. Não caindo na ingenuidade de simplificar uma situação que é bastante dramática, não podemos negar que faz um certo sentido mudar a nossa atitude interior diante da adversidade. Afinal de contas, o nosso Pai do Céu é rico!
Nos últimos tempos ouvem-me falar repetidas vezes de missão, envangelização, do desejo de sermos uma paróquia feita de discípulos missionários, que saí para fora e acolhe quem vem de novo, temos rezado pela transformação e renovação paroquial. Até escrevi o mês passado acerca do pó da nossa igreja.
Eis-nos numa situação em que já devíamos ter discutido tudo isto há 20 anos. Porquê? Porque no nosso modelo tradicional de ser Igreja não chega... vemo-nos numa situação que revela todas as nossas fraquezas enquanto instituição: nunca nos ocorreu que não nos podíamos encontrar todas as semanas; muito menos nos ocorreu celebrar a Páscoa com a Igreja vazia; não sabemos bem como resolver a questão da catequese; não imaginávamos não contar com os ofertórios para pagar as despesas; não sabemos o número de telefone de toda a gente para ligar e saber como estão. E as respostas que felizmente as novas tecnologias nos oferecem: streaming, vídeos no Facebook e no Youtube, reuniões por vídeo conferência, não chegam a uma grande e significativa parte da nossa comunidade!
A questão que se impõe dolorosamente é: como fazer? Como continuar apesar da adversidade?
Sim, porque a nossa missão de ir e ensinar, fazer discípulos, implica também sermos próximos de quem mais precisa. Implica cuidar uns dos outros como família alargada que somos.
É bem verdade que estamos esperançados que tudo isto seja provisório, e que sejam apenas umas semanas mais complicadas. Mas e se não for? E se no próximo inverno tivermos que voltar ao isolamento? E se for o Covid 20 ou 21?
Temos aqui duas possibilidades: “panicamos” (ato de entrar em pânico coletivo ou individual), ou (re)inventamo-nos. Conhecendo as gentes da Marinha, tenho a certeza que a aposta será numa re-invenção da nossa comunidade paroquial. É por isso tão importante para todos nós ter bem presente a missão que foi confiada à igreja e a cada um de nós. E muito mais presente ainda o que significa ser cristão e como ser cristão.
Reparem como a visão clericalista da igreja agora é tão redutora: o padre agora está em casa e, para aqueles que entendem o ir à igreja como um “picar o ponto”, estão agora certamente muito desconfortáveis. Bem como os que acham que a oração tem que ser começada pelo padre, porque estão mais próximos de Deus.... Todas essas ideias e mais algumas (...), ficam em maus lençóis.
Diziam alguns profetas da desgraça que após esta crise as igrejas ficariam despidas de gente, que o povo não regressaria. Acredito que tivessem o artigo já pronto e faltasse apenas uma desculpa e um motivo para sentenciar o fim da Igreja.
Digo-o com toda a honestidade e franqueza: se alguém abandona a Igreja porque não pode ir à missa umas semanas, nunca fez verdadeiramente parte dela. A esses não digo boa viagem, digo “bem-vindos”, quando decidirem regressar. Temos aqui uma oportunidade extraordinária para redescobrir a nossa Fé e a nossa comunidade.
Vivemos um momento de viragem, é bem provável que daqui a uns anos olhemos para 2020 como o ano em que mudaram comportamentos, relações e perspectivas. A Fé não está isenta dessa mudança. É aqui que entra o desafio, como o homem rico, de questionar: Como posso fazer tirar o maior partido destas circunstâncias?
Nem eu nem o padre Rui temos as soluções e as respostas, ninguém as tem. A nós padres, compete-nos o trabalho de conduzir, desafiar, incentivar e acompanhar. Reparem como agora a catequese está dependente dos pais e não dos catequistas. A oração, o encontro com Deus depende verdadeiramente de cada um de nós. É bem verdade que ir à igreja, mesmo que sem grande vontade ou participação interior, trazia um certo conforto: “pelo menos fui!”. Agora é tudo diferente, não nos adianta fazer streaming em alta definição para várias plataformas ao mesmo tempo, pois em última análise depende da vontade de cada um de se unir espiritualmente, de se fazer presente verdadeiramente naquele momento.
Até o comungar ganhará uma dimensão maior! Não é só ir na fila distraidamente ou a serpentear pela igreja para encontrar a fila onde está o padre. Comungar agora espiritualmente será o desejo interior e profundo de se unir com Cristo Ressuscitado, recebê-lo na sua vida e viver de acordo com essa presença.
Sim, vivemos tempos oportunos para crescer na Fé. Ler, estudar, rezar, pegar na Bíblia com a família, ler e partilhar o que se lê. Pegar no catecismo dos miúdos e explorar com eles. Pegar naquele Youcat que os adolescentes têm lá em casa (ou mandar vir) e esclarecer questões de Fé.
Gostaríamos muito, nós os vossos padres, que crescêssemos como Igreja doméstica. Não porque substituí a nossa Assembleia dominical, mas porque a potencia. Quando voltarmos a estar juntos, vamos redescobrir a importância e o valor de o fazer. Vamos cantar todos, vamos responder com mais força, vamos ser mais ativos: vamos celebrar verdadeiramente uma Igreja que está viva e que mantém a presença de Cristo uma realidade palpável na nossa cidade.
Precisamos de nos re-inventar: em novas maneiras de contacto, de estar presentes. Permitam-me que o diga assim: precisamos de uma comunidade à prova de pandemias, mas sobretudo à prova de distâncias. Precisamos descobrir e adaptarmo-nos a uma realidade que nem sempre nos permite estar juntos fisicamente, mas que nos permite estar envolvidos e próximos. E sim, um telefonema, um ir às compras pelo vizinho, uma vídeo-chamada de grupo, ensinar os pais a utilizar o smartphone, etc, etc, etc.
A nossa catequese precisa ser centrada no essencial: a transmissão da Fé, de pais para filhos, com o apoio da comunidade.
Da nossa parte tentaremos fazer chegar toda a ajuda possível, estar presentes, partilhar ideias e ferramentas que por estes dias se multiplicam na internet. Juntos vamos manter a nossa comunidade viva.
Sem medo do futuro confiemos a Deus o nosso presente, abramos o nosso coração e como os pastorinhos em Fátima perguntemos juntos: o que é que vossemecê me quer?